À irmã que parte

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Todo inverno lembro de quando éramos bem pequenas e, durante as noites mais frias, juntávamos nossas camas de criança e dormíamos abraçadinhas, com um monte de cobertor em cima de nós. Nessa época eu não tinha alergia a pelo de coberta e o vão que ficava entre as camas parecia não existir. E então nos seus braços sumiam o vento, a noite e o medo da escuridão. Nosso quarto sempre foi nosso refúgio, nosso mundo secreto onde adulto era proibido de entrar em dia de festa do Dia das Irmãs. Ali a gente brincava, virava bicho, vampiro, aventureira, princesa e o que mais a imaginação permitisse.

Com o tempo as camas passaram a ficar sempre em seus devidos lugares: a minha perto da porta e a sua embaixo da janela, mas ainda assim eu despertava confusa no meio da noite com você chamando meu nome duas ou três vezes, até eu responder e você questionar: “já ta dormindo? To sem sono”. Aí começávamos a conversar, rindo baixinho pra não acordar os moradores do quarto ao lado até você dizer “me deu sono” e eu responder “ah, mas agora o meu passou”. E nesse ciclo provavelmente viramos muitas madrugadas.

Depois a vida adulta foi chegando e os vãos começaram a ser necessários e o despertador programado para 5h da manhã tornaram as conversas noturnas mais curtas do que gostaríamos, mas ainda assim nossas noites muitas vezes foram a melhor parte do meu dia. É estranho não ter que me preocupar em descer da minha cama sem pisar no seu joelho e não ir correndo para casa guardar minhas roupas correndo antes que você chegue e veja que estão todas em cima da sua cama. Faz falta sua vozinha de sono me dizendo “Tink?” toda vez que entro na pontinha do pé no quarto escuro e ainda assim você acorda. Dá medo ter pesadelo e ao acordar não ouvir você respirando baixinho ali do lado, o que sempre me fez pensar “ufa, tudo voltou ao normal”, mas é assim que se cresce, é assim que aquelas duas coisinhas vão virando gente. Aqui do meu lado anda sobrando espaço no quarto, no guarda-roupa e sobrando saudades dentro do coração, mas tudo que queria te dizer é “voa, porque lugar de passarinho é no ar, não no ninho”.

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Cartas de amor

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Nesse fim de semana, enquanto ia me apaixonando por Manuel Bandeira me deparei com um poema que me fez perceber que se minha casa pegasse fogo e só pudesse salvar uma coisa eu choraria pelos meus livros, pelos meus bichos de pelúcia e pelas fotos, mas seguramente escolheria levar minhas 3 caixas de sapato recheadas de cartas. Um mundo particular que guardo desde a infância: confidências com a melhor amiga, desejos de feliz aniversário da irmã mais velha, desenhos tremidos da caçula, carinhos da mãe, desabafos do pai, recados de bom dia escritos às pressas e juras de amor. Um relicário de lembranças, pessoas e momentos eternizados em uma folha de papel. Sentimentos que nunca poderiam ser expressos em e-mails ou redes sociais, feitos de letras trêmulas, tintas borradas por lágrimas e marcas de uma dobradura especial, tudo guardado para sempre ali. Se entregar uma carta é doar um pedacinho da alma a minha está completamente espalhada por aí, transformada em alegrias, comemorações, amizade, dores, ciúmes, festa e amor. Não sei delas: talvez estejam guardadas em gavetas, talvez picadas no lixo ou talvez ainda sejam capazes de fazer alguém sorrir, mas já não importa, cada carta um dia feita, letra a letra, já é uma pitada de amor — o tempero do mundo. E é por isso, simplesmente por isso, que eu poderia estar dizendo, poderia estar anunciando aos quatro ventos, mas fico por aqui, escrevendo com carinho mais uma singela carta de amor. Por fim, o poema inspirador: 

Cartas de Meu Avô

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme…
A dor… a visão da morte…
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu…
Do meu – fruto sem cuidado
Que inda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora, abismada no luto
Das minhas desesperanças…

E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que, meu avô
Escrevia a minha avó.

(Manuel Bandeira)

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Amores de metrô

estacao-trianonDesde a primeira vez que o viu sentiu que seria eterno e verdadeiro. Já havia conhecido muitos homens, mas aquele definitivamente era especial. Ela o observava de canto de olho encostada na parede, enquanto ele lia distraído alguma coisa sobre… talvez música, não conseguiu esticar tanto o pescoço a ponto de se certificar. Não era belo e piscava o olho esquerdo de uma maneira esquisita enquanto avançava pelas páginas, mas o fazia com tanta paixão que ela desejou virar partitura. O moletom desleixado convidava a um abraço apertado, mas os braços cruzados talvez indicassem que queria distância. Hesitou por mais alguns segundos, ponderou, tentou ver seu reflexo no vidro, ajeitou a franja e mordeu o canto do lábio nervosamente enquanto buscava um lápis de olho jogado no fundo da bolsa e um rascunho qualquer para rabiscar seu telefone. 98523… tarde demais, a porta abriu e ele desceu apressado em meio a multidão, sem nunca saber que por 3 minutos foi o mais puro amor da vida de alguém.

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Viajar é trocar a roupa da alma

mochileiroAgosto. Há um ano decidi me desprender de toda a segurança que o Brasil me oferecia, como moradia, um namoro aparentemente sólido e um ótimo salário para ir me aventurar na desconhecida Argentina, sem nenhum plano específico, trabalho ou sequer casa. Passei mais 2 meses trabalhando para guardar dinheiro e fui. Senti medo, passei mal no avião, não entendia o que as pessoas me diziam e não tive ninguém para me pegar no aeroporto, mas cheguei viva na pensão de um amigo. Viva, exausta e muito feliz. Fui bem recebida e me ofertaram um quarto, mas dormia no chão, apenas com um saco de dormir e um edredom. Tudo bem, era verão e eu acordava com o Sol entrando pela janela e passarinhos cantando.

Com o passar do tempo conheci pessoas maravilhosas, me “re”conheci, descobri a magia do circo, aprendi espanhol, aprendi a tomar vinho, aprendi a tomar mate, aprendi a me virar sozinha, criei coragem de virar vegana, perdi o medo de falar com desconhecidos e fazer novos amigos, inventei um mochilão pelo Uruguai, me apaixonei por essas terras, vi lobo marinho a menos de um metro de distância, tomei café da manhã na praia vendo o Sol nascer, vendi artesanato com amigos hippies, aprendi a escutar minha alma no silêncio das dunas e, principalmente, entendi que trabalhar para viver é já estar morto.

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Só que não, nem tudo são flores: quando voltei para São Paulo parecia que o lugar que sempre foi meu porto seguro já não tinha mais espaço para mim. Não me chamavam para nenhuma entrevista de emprego, não tinha um puto no bolso, “perdi” o namorado para alguém mais fisicamente presente e tinha a sensação de que quase todos meus amigos estavam diferentes demais, mesmo sabendo que na verdade eles eram os mesmos e eu que havia me transformado. Olhando para tudo isso hoje percebo que realmente essa viagem mudou minha vida e reconfigurou todo meu universo, mas como diz Mario Quintana, “no fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar”. E acho que é isso que as viagens fazem: elas sopram sua vida inteira, do começo ao fim, deixando apenas o que é mesmo real e importa. Agora, um ano depois, a única coisa que tenho a dizer é: eu faria tudo outra vez. Se você que está lendo esse texto sonha em viajar mas tem um milhão de dúvidas só posso dizer: “Vai! E se der medo, vai com medo mesmo, porque de fato o mundo é bem mais que seu quintal”.

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A criança que você foi se orgulharia de quem você é?

ciganaMorro de inveja das crianças que sempre tiveram sonhos promissores: ser médico, engenheiro ou advogado, as profissões que desde que o Brasil é Brasil são consideradas mais refinadas. Eu também tive meu sonho de infância, mas ele nunca foi lá muito animador: eu queria ser cigana! Usar aquelas roupas lindas, me encher de badulaques, ter um cabelão, pintar o rosto, acampar e sair dançando. Ao contrário das minhas amigas que achavam que ciganos roubavam criancinhas eu ficava fascinada toda vez que cruzávamos com um grupo de nômades.

Com o passar do tempo eu também quis ser dentista e veterinária, mas no fundo eu sempre quis mesmo é ser cigana. Depois, na adolescência, queria ser hippie, o que na minha cabeça era apenas uma outra forma de ser cigana: fazer bijuterias, ficar de boa, usar aquelas roupas lindas, me encher de badulaques, ter um cabelão, pintar o rosto, conversar com os pedestres e sair viajando por aí. Mas ainda assim eu me rendi ao que a sociedade esperava de mim e fiz biologia. Passei quatro anos estudando, estagiei, me formei e até colei grau, com beca e tudo.

O problema é que nem o canudo nem o diploma foram capazes de adormecer aquela criancinha. Ela continua aqui dentro até hoje, sempre com sua mochilinha nas costas, querendo viver de circo, dormir em uma barraca, vender comidas veganas ou escrever deitada na areia. Essa pequena menina já olhou muitas vezes para nosso diploma, mas acho que ela ainda não aprendeu a ler, porque para ela ele não faz sentido algum. Acho que se pudesse ela usaria aquele papel grosso e pomposo para desenhar ou criar uma nova historinha.

E quanto mais o tempo passa, enquanto tento me encaixar entre doutores e profissionais de sucesso, enfiada em um mundo de escritórios, computadores e carteiras assinadas, menos admiração a minha pequena eu tem por mim. Talvez no fundo, a resposta para ser feliz esteja simples em se questionar: “a criança que você foi um dia se orgulharia de quem você é hoje?”.

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Eu gosto é de mulher

meninasPasseando pela minha agenda do celular vejo que, como muitas mulheres, eu tenho mais amigos que amigas. Até esse ano isso me parecia muito normal para alguém como eu, que tem preguiça de falar sobre unhas, sobre flertes e homens e a última tintura tendência para cabelos. Me parecia natural que os homens fossem melhores companheiros de cerveja, falar besteira e dar risada. Até que esse ano me deparei com o texto Recado para as inimigas, da incrível Aline Valek, que me virou do avesso e trouxe à tona muitas verdades que nem percebia.

A cada linha que lia sentia vontade de chorar e de voltar no tempo. Cadê a eu que brincava de casinha com a Dani, a Pâmella e a Rita? Onde está a Dé que passava todas as tardes brincando de esconde-esconde e elefantinho colorido com a Shirley, a Kelly e a Graciela? Eu adorava que minha melhor amiga da primeira série fosse a Sônia, uma japonesa super fofa. Sim, eu gostava de meninas, no sentido mais puro da expressão, antes de um patriarcado filho-da-puta me ensinar que mulheres são fúteis e traiçoeiras e que se for para gostar delas que seja apenas para pegá-las e satisfazer a maior de todas as fantasias masculinas. Os meninos é que eram chatos e bobos. Eles puxavam nossos cabelos, jogavam baratas de plástico no nosso ombro e ficavam soltando pum. Com as meninas era muito mais legal e divertido.

Quando isso aconteceu? Na quinta série eu ainda preferia as meninas e meu grupinho inseparável composto por mim, Nathália, Juliana e Daniella. A gente falava sobre aprender a se maquiar, meninos, como lidar com as primeiras menstruações, o primeiro selinho escondido na biblioteca e sobre como eu saí chorando e correndo pelo pátio quando um coleguinha da nossa sala disse que queria conversar comigo no intervalo e me pediu em namoro. Nessa mesma época fazer pão e andar de bicicleta com a Aline era tudo que eu precisava para ser feliz.

Acho que tudo começou quando mudei mais uma vez de escola, na sétima série, e era excluída pelas meninas por gostar de estudar. Não fazia sentido para elas que eu preferisse ler a sair pra baladinha local. Como as meninas “mais descoladas da escola” me achavam idiota por nunca ter beijado ninguém e queriam me forçar a encontrar algum peguete em potencial eu me aproximei da Ana Paula, uma menina do mesmo jeito que eu. Essa foi minha última tentativa, até esse ano, de acreditar que ao lado das minhas parceiras, as mulheres, eu estaria protegida. Na oitava série por algum motivo que não me lembro eu e a Ana não estávamos mais na mesma sala, período ou escola e mais uma vez estava sozinha. Foi aí que comecei a me aproximar dos meninos. Eles me acolheram, me protegeram e me fizeram companhia. Eles gostavam de mim como eu era e realmente me amavam. Juninho, Renato, Luiz Felipe, Sant’Anna… e entre nós a Patrícia, a transição para o período “quase todas as mulheres são idiotas, mas algumas são legais”.

A partir de então tive sim algumas amigas, mas claramente muito mais amigos. Quanto mais eu crescia menos me identificava com as mulheres, como o patriarcado sempre sonhou. Elas representavam ameaças e uma constante comparação de qual era mais gostosa (onde eu sempre perdia, obviamente) e mais bonita. A luta havia começado.

Quase toda mulher tem aquela melhor amiga ou talvez até um grupinho de amigas, mas as demais, meu amigo, as demais a gente passa por cima. Atropela ou elas te atropelarão. É para isso que somos criadas. Mas a verdade é que mulher não é fútil, fofoqueira, falsa ou maldosa, assim como os homens não são mais legais, sinceros e honestos, como cresci ouvindo. Claro que temos nossas deliciosas diferenças, mas em geral homens e mulheres são iguais, se diferenciando apenas no fato de que eles são criados para serem unidos e nós para nos digladiarmos, já que sozinhas somos mais fracas e vulneráveis.

É claro que amo meus amigos e não me arrependo de nenhum deles, mas sinto falta de mais cromossomos X na minha vida. Queria ter mais mulheres por perto, mas passei tanto tempo evitando-as que não sei nem como começar. Talvez eu pareça distante e inatingível, mas é só medo, sabe? Então vou tentar tudo de novo, como na primeira série, e sentar ali no meio do pátio, bem visível, com minha lancheira cheia de suco e bolacha e com uma carinha receptiva, ta? Pode vir, traz seu brinquedo e senta aqui do meu lado pra gente conversar, ta gostoso no Sol.

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Que a gente se aqueça nesse inverno e que tudo mais vá pro inferno

frioOntem ouvi dizer que em São Paulo fez 10ºC e hoje fará 8ºC. Não sei se é verdade ou não, mas pelo frio que to sentindo deve ser mentira e na verdade está uns -5ºC e nevando algum tipo de neve invisível. Esse frio todo do inverno SEMPRE me faz pensar nas pessoas que não têm casa e nas mães que choram de desespero enquanto veem seus filhos tremendo de frio em papelões na calçada, sem ter como esquentá-los, ainda que os abracem com muita força. Todo ano faço alguma doação para a campanha do agasalho, mas como sempre me questiono sobre a verdadeira eficácia dessa ação e qual  o destino dessas vestes, tive uma ideia mais imediata: hoje vou levar um cachecol e uma blusa de frio na bolsa e darei para a primeira pessoa de rua que vir.

Claro que quem está em orfanatos ou abrigos precisa de ajuda (não é porque alguém está numa situação pior que a ruim deixa de importar), mas acho que ninguém sofre mais com o frio do que quem tem a rua como sala, as esquinas como banheiro, as lixeiras como cozinha e as calçadas, cada vez mais inclinadas e com grades antimendigos como quarto. Por isso estou aqui com minha sacolinha e, como não achei ninguém passando necessidade no meu trajeto diário, irei caminhar pela Paulista após o trabalho para encontrar.

Se não fico com vergonha de abordar um estranho? Não, sinto vergonha só de ter tanta roupa no armário enquanto há gente passando frio. Se não acho bizarro sair procurando morador de rua pela Paulista? Não, o que acho bizarro é fingir que a desigualdade social do nosso país não me diz respeito. Se não tenho medo de ir falar com um mendigo? Tampouco. Meu único medo é que um dia a maré vire, eu me encontre na mesma situação dessas pessoas e ninguém se importe comigo. Se já saiu de casa e não tem como pegar alguma roupa para doar, compre uma luva, touca ou meia no camelô — em geral não custa mais que cinco reais — ou, por favor, compartilhe esta ideia. Claro que ainda vale doar algo amanhã ou quando for, mas não vamos esquecer que o dia de hoje (imagina a noite) será o mais frio dos últimos dez anos. Mais amor e mais calor, por favor!

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