Carta ao pai do meu filho

 

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Não te escrevo há tanto que já cheguei a pensar que minhas cartas para você haviam completado seu ciclo, assim como “nossa história” — nem sempre bonita, mas ainda assim uma história. Nesse mundo em constante movimento, porém, a força das águas rodou o moinho do destino e iniciou outro ciclo, talvez o mais forte de nossas vidas, que é o motivo pelo qual uma nova rodada de cartas está surgindo: O ciclo da m(p)aternidade.

No exato momento em que eu e você viramos um uma revolução aconteceu e você foi elevado a um patamar especial na minha vida: O degrau super alto de “pai do meu filho”. Com amor e zelo eu gestei por cerca de 37 semanas a sua metade, ainda que com tantas dores e desconfortos, como você sabe bem. Após nove meses dessa minha construção nós parimos juntos, dando ao mundo uma mini pessoa cheia de vida, que brilha mais que aquelas algas luminosas. E esse menino espoleta, que cresce forte sob meus cuidados, é e sempre será sua metade, ainda que por vezes se pareça tanto comigo.

Talvez nosso filho mude bastante quando for um homem. Poderá ter cabelo curto ou comprido, ficar com barba ou não, variar entre diversos estilos e até fazer uma plástica, mas por mais que ele mude sempre terá o mesmo genótipo, que somos “nós”. E assim é com o interior, que será influenciado pelas pessoas que nosso pequeno conhecer, ambientes que frequentar e situações que viver, mas sempre terá em sua essência o pai e a mãe (as maiores referências dele), refletindo principalmente as marcas dessa primeira infância. Então o Vini precisa de você, não só para ensinar coisas que não serei capaz, como a atravessar na faixa ou falar baixo, mas principalmente e simplesmente “por você”.

E é por isso que, acima e apesar de tudo, te quero bem. Desejo do mais puro coração que todos os dias você encontre motivos para sorrir e viver, colorindo assim o mundo do Vini. Desejo-te também saúde, para que possa ficar bem velhinho e ter muito tempo para ensinar nosso menino a gostar de Beatles, tocar baixo e andar de skate. Além disso te desejo paixões, para que você tenha leveza o bastante para mostrar ao Vini que amor é ninho, não gaiola. Que ele olhe para nós e entenda que filho não significa casamento, porque se um sentimento precisa de algemas esse sentimento já está morto. E que assim o Vini possa ser livre para amar e desamar quantas vezes o pequeno coração dele quiser e permitir.

Às vezes vejo o Vini brincando entretido, sem perceber que está sendo observado, e noto muito de você. Não só pelo olhar, pelo queixo de bolinha ou pelas pernas arqueadas, mas pelo jeito, pela alma. Ele é meu parceirinho, você sabe, e nessas horas lembro de que você também já foi. Recordo de nossas parcerias em seminários da faculdade, chuva na barraca ou porres homéricos. Você confiava em mim e eu em ti. Como diz uma música que me lembra você, “nós fizemos história, pra ficar na memória”, então te peço, quase imploro, para que escreva esses novos capítulos com cuidado, caprichando na letra e se esforçando para não borrar. Conte comigo para escrever muitas páginas, mas assuma a redação se minha mão doer ou acabar a inspiração. Me procure se se perder e me resgate se eu me desorientar.

De tantas trilhas que já fizemos essa é sem dúvida a mais difícil, mas também a mais prazerosa. Então vamos juntos? Fazemos assim: Você me ajuda a passar pelas pedras e eu afasto os insetos. No fim haverá a paisagem mais bela de todas, que não é mar, cachoeira, nem mato: Haverá o sorriso do Vini, aquele sorriso que desmonta nossos mundos. Haverá nosso filho criado, pronto para abrir as asas e voar, seja contigo, comigo ou em horizontes distantes, seguro de que pode ir para onde quiser, sabendo que independente do que aconteça ele poderá sempre voltar com uma asinha quebrada para meu colo ou pro seu, na certeza de que não faltará amor.

Com afeto,
Da mãe do seu filho.

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