carta à mãe – a cura

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Onze anos. Foram longos e com frequência escuros anos. A gente sempre se deu tão bem, né? Eu tagarela, a senhora tão quieta, eu engraçadinha, a senhora séria… Acho que nos completávamos. E nessa já uma década de fato me senti como se faltasse uma parte de mim. Foi tão difícil, tão solitário, tão cruel, que tentei esquecer. Consegui. E depois doía mais ainda por não lembrar.

Mas aí… Aí eu voltei. Sua casa, seu quarto, seu tanque, seu quintal. Meu. Nosso. Sua vida, nossa história. Eu temia que fosse amargo, mas não: Do veneno veio o antídoto. Os cortes que fecham a ferida. Lembrei de quantas vezes dividimos um pastel na avenida, das tardes vendo desenho no sofá e do quanto me amou. Esses disse passei em frente à minha ex escola e lembrei de uma tarde chuvosa que a senhora apareceu na saída da escola, de surpresa, pra me levar um guarda chuva. Lembrei que eu te dei uma bronca e fiquei com vergonha, disse que aquilo era um mico, que eu já tinha quatorze anos haha. Me perdoa? Eu era uma adolescente idiota e hoje penso cinco vezes antes de descer a rua de casa, lembrando que o morro pra subir na volta não é fácil. E a senhora desceu, apenas para me proteger da chuva. Acho que era amor.

Eu tenho dois cachorros aqui no quintal. Dá um trabalho cuidar deles e manter tanto espaço limpo né? E a senhora, que nem gostava tanto de cachorro assim, preferindo suas codornas, me deixava ter um monte de cachorro e fazia o que era preciso. E fazia por mim, só pra me ver sorrir. Acho que era amor.

Hoje consegui fazer almoço como a senhora fazia pra conseguir cozinhar comigo: Dei um pote com comidinhas pro Vini fingir que tava cozinhando também. Ele ficou tão contente quanto eu ficava. Aqui sempre falta água, né? Sabia que eu pensava que a senhora enchia aquele barril de água só pra que eu e a Dani usássemos de piscina pras nossas bonecas? Haha

Os vizinhos, que não me viam há tempos, têm dito que “minha nossa, você ficou a cara da sua mãe”. Isso me enche de orgulho, porque a senhora, ainda que não esteja mais aqui para saber disso, sempre foi meu exemplo de beleza, caráter e justiça. E a cada manhã que acordo no meu, seu, nosso quarto, eu tento ser um pouco mais como ti. Só queria que soubesse que, como escreveu Galeano, a alegria soube ser mais poderosa que a dúvida e melhor que a memória. Aqui fomos felizes, então essa casa é sagrada. Eu vou cuidar do nosso lar.

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