À irmã que parte

irmã

Todo inverno lembro de quando éramos bem pequenas e, durante as noites mais frias, juntávamos nossas camas de criança e dormíamos abraçadinhas, com um monte de cobertor em cima de nós. Nessa época eu não tinha alergia a pelo de coberta e o vão que ficava entre as camas parecia não existir. E então nos seus braços sumiam o vento, a noite e o medo da escuridão. Nosso quarto sempre foi nosso refúgio, nosso mundo secreto onde adulto era proibido de entrar em dia de festa do Dia das Irmãs. Ali a gente brincava, virava bicho, vampiro, aventureira, princesa e o que mais a imaginação permitisse.

Com o tempo as camas passaram a ficar sempre em seus devidos lugares: a minha perto da porta e a sua embaixo da janela, mas ainda assim eu despertava confusa no meio da noite com você chamando meu nome duas ou três vezes, até eu responder e você questionar: “já ta dormindo? To sem sono”. Aí começávamos a conversar, rindo baixinho pra não acordar os moradores do quarto ao lado até você dizer “me deu sono” e eu responder “ah, mas agora o meu passou”. E nesse ciclo provavelmente viramos muitas madrugadas.

Depois a vida adulta foi chegando e os vãos começaram a ser necessários e o despertador programado para 5h da manhã tornaram as conversas noturnas mais curtas do que gostaríamos, mas ainda assim nossas noites muitas vezes foram a melhor parte do meu dia. É estranho não ter que me preocupar em descer da minha cama sem pisar no seu joelho e não ir correndo para casa guardar minhas roupas correndo antes que você chegue e veja que estão todas em cima da sua cama. Faz falta sua vozinha de sono me dizendo “Tink?” toda vez que entro na pontinha do pé no quarto escuro e ainda assim você acorda. Dá medo ter pesadelo e ao acordar não ouvir você respirando baixinho ali do lado, o que sempre me fez pensar “ufa, tudo voltou ao normal”, mas é assim que se cresce, é assim que aquelas duas coisinhas vão virando gente. Aqui do meu lado anda sobrando espaço no quarto, no guarda-roupa e sobrando saudades dentro do coração, mas tudo que queria te dizer é “voa, porque lugar de passarinho é no ar, não no ninho”.

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Uma resposta para À irmã que parte

  1. Sato disse:

    Muito bom o texto Dé!

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