Cartas de amor

escrevendo-com-uma-pena

Nesse fim de semana, enquanto ia me apaixonando por Manuel Bandeira me deparei com um poema que me fez perceber que se minha casa pegasse fogo e só pudesse salvar uma coisa eu choraria pelos meus livros, pelos meus bichos de pelúcia e pelas fotos, mas seguramente escolheria levar minhas 3 caixas de sapato recheadas de cartas. Um mundo particular que guardo desde a infância: confidências com a melhor amiga, desejos de feliz aniversário da irmã mais velha, desenhos tremidos da caçula, carinhos da mãe, desabafos do pai, recados de bom dia escritos às pressas e juras de amor. Um relicário de lembranças, pessoas e momentos eternizados em uma folha de papel. Sentimentos que nunca poderiam ser expressos em e-mails ou redes sociais, feitos de letras trêmulas, tintas borradas por lágrimas e marcas de uma dobradura especial, tudo guardado para sempre ali. Se entregar uma carta é doar um pedacinho da alma a minha está completamente espalhada por aí, transformada em alegrias, comemorações, amizade, dores, ciúmes, festa e amor. Não sei delas: talvez estejam guardadas em gavetas, talvez picadas no lixo ou talvez ainda sejam capazes de fazer alguém sorrir, mas já não importa, cada carta um dia feita, letra a letra, já é uma pitada de amor — o tempero do mundo. E é por isso, simplesmente por isso, que eu poderia estar dizendo, poderia estar anunciando aos quatro ventos, mas fico por aqui, escrevendo com carinho mais uma singela carta de amor. Por fim, o poema inspirador: 

Cartas de Meu Avô

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme…
A dor… a visão da morte…
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu…
Do meu – fruto sem cuidado
Que inda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora, abismada no luto
Das minhas desesperanças…

E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que, meu avô
Escrevia a minha avó.

(Manuel Bandeira)

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4 respostas para Cartas de amor

  1. Fiquei com vontade de tb reunir todas as minhas cartas em caixas!

  2. Karen disse:

    Que lindo isso!

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