Eu gosto é de mulher

meninasPasseando pela minha agenda do celular vejo que, como muitas mulheres, eu tenho mais amigos que amigas. Até esse ano isso me parecia muito normal para alguém como eu, que tem preguiça de falar sobre unhas, sobre flertes e homens e a última tintura tendência para cabelos. Me parecia natural que os homens fossem melhores companheiros de cerveja, falar besteira e dar risada. Até que esse ano me deparei com o texto Recado para as inimigas, da incrível Aline Valek, que me virou do avesso e trouxe à tona muitas verdades que nem percebia.

A cada linha que lia sentia vontade de chorar e de voltar no tempo. Cadê a eu que brincava de casinha com a Dani, a Pâmella e a Rita? Onde está a Dé que passava todas as tardes brincando de esconde-esconde e elefantinho colorido com a Shirley, a Kelly e a Graciela? Eu adorava que minha melhor amiga da primeira série fosse a Sônia, uma japonesa super fofa. Sim, eu gostava de meninas, no sentido mais puro da expressão, antes de um patriarcado filho-da-puta me ensinar que mulheres são fúteis e traiçoeiras e que se for para gostar delas que seja apenas para pegá-las e satisfazer a maior de todas as fantasias masculinas. Os meninos é que eram chatos e bobos. Eles puxavam nossos cabelos, jogavam baratas de plástico no nosso ombro e ficavam soltando pum. Com as meninas era muito mais legal e divertido.

Quando isso aconteceu? Na quinta série eu ainda preferia as meninas e meu grupinho inseparável composto por mim, Nathália, Juliana e Daniella. A gente falava sobre aprender a se maquiar, meninos, como lidar com as primeiras menstruações, o primeiro selinho escondido na biblioteca e sobre como eu saí chorando e correndo pelo pátio quando um coleguinha da nossa sala disse que queria conversar comigo no intervalo e me pediu em namoro. Nessa mesma época fazer pão e andar de bicicleta com a Aline era tudo que eu precisava para ser feliz.

Acho que tudo começou quando mudei mais uma vez de escola, na sétima série, e era excluída pelas meninas por gostar de estudar. Não fazia sentido para elas que eu preferisse ler a sair pra baladinha local. Como as meninas “mais descoladas da escola” me achavam idiota por nunca ter beijado ninguém e queriam me forçar a encontrar algum peguete em potencial eu me aproximei da Ana Paula, uma menina do mesmo jeito que eu. Essa foi minha última tentativa, até esse ano, de acreditar que ao lado das minhas parceiras, as mulheres, eu estaria protegida. Na oitava série por algum motivo que não me lembro eu e a Ana não estávamos mais na mesma sala, período ou escola e mais uma vez estava sozinha. Foi aí que comecei a me aproximar dos meninos. Eles me acolheram, me protegeram e me fizeram companhia. Eles gostavam de mim como eu era e realmente me amavam. Juninho, Renato, Luiz Felipe, Sant’Anna… e entre nós a Patrícia, a transição para o período “quase todas as mulheres são idiotas, mas algumas são legais”.

A partir de então tive sim algumas amigas, mas claramente muito mais amigos. Quanto mais eu crescia menos me identificava com as mulheres, como o patriarcado sempre sonhou. Elas representavam ameaças e uma constante comparação de qual era mais gostosa (onde eu sempre perdia, obviamente) e mais bonita. A luta havia começado.

Quase toda mulher tem aquela melhor amiga ou talvez até um grupinho de amigas, mas as demais, meu amigo, as demais a gente passa por cima. Atropela ou elas te atropelarão. É para isso que somos criadas. Mas a verdade é que mulher não é fútil, fofoqueira, falsa ou maldosa, assim como os homens não são mais legais, sinceros e honestos, como cresci ouvindo. Claro que temos nossas deliciosas diferenças, mas em geral homens e mulheres são iguais, se diferenciando apenas no fato de que eles são criados para serem unidos e nós para nos digladiarmos, já que sozinhas somos mais fracas e vulneráveis.

É claro que amo meus amigos e não me arrependo de nenhum deles, mas sinto falta de mais cromossomos X na minha vida. Queria ter mais mulheres por perto, mas passei tanto tempo evitando-as que não sei nem como começar. Talvez eu pareça distante e inatingível, mas é só medo, sabe? Então vou tentar tudo de novo, como na primeira série, e sentar ali no meio do pátio, bem visível, com minha lancheira cheia de suco e bolacha e com uma carinha receptiva, ta? Pode vir, traz seu brinquedo e senta aqui do meu lado pra gente conversar, ta gostoso no Sol.

Anúncios
Esse post foi publicado em Comportamento. Bookmark o link permanente.

8 respostas para Eu gosto é de mulher

  1. Passei por esse “re-pensar” sobre a amizade com mulheres também. há uns 2 anos decidi que estava cansada de tratar algumas delas como “namoradas/ esposas” de amigos. Por que não minhas amigas também? Mesmo assim, a sensação de que gosto mais da companhia masculina perdurou… até que uma das minhas poucas amigas disse que eu gostava mais deles porque eles me mimam demais… acho que ela tem razão.

    • deboraqsantos disse:

      Acho que não há problema em gostar mais da companhia masculina, assim como há quem goste mais de laranja que de maçã. O problema que eu vejo é NÃO gostar das mulheres e vê-las como potenciais inimigas o tempo todo, nunca como possíveis amigas.

  2. Ana disse:

    Por acaso vc nao mora em BH? Amei seu post, achei a gente parecida! ia te convidar para um café, quem sabe um dia uma amizade?

  3. papillon disse:

    Que coisa! Acho que é a primeira vez que leio um relato do gênero. Consigo ver e entender isso de que chega uma idade um pó mágico (na verdade, veneno em pó) que faz nascer um sentimento de competição entre as mulheres, realmente, era tão fácil falar mal de outra guria, os motivos eram tão banais e nunca eram bons motivos e ainda assim, era um sentimento comum entre todas as meninas, a sensação de odiar umas as outras como se fossem algum tipo de ameaça. Mas a coisa era fantasiada, maquiada. As meninas se abraçavam, conviviam, conversavam, mas bastava uma virar que era terreno para comentários maldosos. Acho que não existe mulher que não passou por isso, por sentir algo ruim por outra e agir com maldade sem pensar muito bem no porque. Acho que comecei a falar mal de outras garotas com uns 12/13 anos, mas sempre desconfiei dessas ações tão estimuladas por minhas coleguinhas, e acho que fui parando gradativamente a partir dai.

    Mas o que não consigo entender no teu relato foi tu encontrar abrigo nos homens. Comigo não foi assim. Eu sofria bullying (odeio esse termo e odeio o som de expressar isso, parece sempre tão sofrido). Na verdade, vou trocar, meus colegas tiravam muito sarro de mim, porque eu tinha um cabelo muito feio, usava aparelho, me vestia mal, era insegura, desleixada e ainda por cima era um pouco perdida na vida, ficava horas fazendo desenhos feios nos cadernos e pensando na vida invés de estudar e me dedicar a alguma coisa.

    Lógico, só consigo enxergar assim porque cedi a pressão da sociedade. Sim, meu cabelo era feio porque todos diziam que era feio. A composição da minha aparência era um desastre pois todos diziam que era um desastre, parte de todas as dificuldade que eu tinha era em função de tantas criticas. E sim eu cedo quando digo que a razão de tirarem sarro de mim era em função dessas coisas como se uma coisa justificasse a outra. Mas em um caso desse, em quem colocar a culpa? Nas crianças, em mim, “na sociedade” como se eu e as crianças não fossem parte dela?

    Voltando ao assunto, as meninas eram malvadinhas, faziam comentários ruins sobre a aparência e comportamento de outras garotas, também faziam maldade sobre alguns meninos (os com aparência “desagradável” ao gosto da maioria, ou os que elas desconfiavam que eram gays) mas sem dúvida a maldade estava entre elas, era na hora de falar mal de outra garota que elas se inspiravam e soltavam o verbo.

    Mas os garotos, não eram diferentes. Na verdade, eram piores! Uns monstros! Eles não só faziam piadas, como apelavam para o contato físico. Empurrar de escada, abaixar a calça dos outros, botar o pé para cair, xingar, vir para cima, jogar coisas nas pessoas. E isso não se limitava a outros garotos, na verdade, os meninos se protegem, desde que sejam héteros e curtam a mesma coisa que eles, sexo, esportes, festas, garotas bonitas, bebidas, drogas.

    Eu sei que falar isso parece um pouco estereotipado, mas na verdade, era isso que eu via na minha escola, na fase onde as pessoas começam a se odiar e competir por um status imaginário.

    Se você fosse uma garota feia, lésbica, negra, gorda, diferente, ou um garoto gay, transexual, afeminado, feio, com algum tipo de doença mental ou protegido pelo os pais de uma forma que te impeça de conhecer festas, bebida, sexo e drogas. Logo, era um alvo certo para agressões.

    Eu encontrei amizade com esse pessoal que era excluído, juro, parece coisa de filme americano sabe? Cheio de esteriótipos. Mas o que eu posso fazer? Minha vida infelizmente foi cheia de “os garotos e garotas bonitos e populares que são malvados com o gay, a lésbica, a garota desarrumada, o transexual, a negra, o tímido, o com algum tipo de deficiência, a gorda…”

    E eu não tenho orgulho disso, tenho horror de escrever sobre isso e de admitir isso.
    A razão de escrever isso no teu post, é que fiquei impressionada com o trecho: “… Mas a verdade é que mulher não é fútil, fofoqueira, falsa ou maldosa, assim como os homens não são mais legais, sinceros e honestos, como cresci ouvindo.”

    Eu nunca ouvi que os homens eram legais, sinceros e honestos. O que eu sempre notei é que eles eram muito bons em lidar com seus iguais mas péssimos, péééééssimos em se abrir para as diferenças. Mas a questão é que somos sim, ensinados a odiar uns aos outros.
    Não acho que seja assim sabe? Mulheres odiando mulheres, e homens amando tudo sem problemas. Acho que não é uma questão só de gênero (apesar de ser sim, uma questão de gênero) Existe um objetivo claro em fazer você odiar o outro, seja lá por qual motivo seja (geralmente são os mais absurdos). Te fazer querer competir, logo, consumir para obter melhores resultados nessa competição. Eu sei, parece aquele velho argumento de quem não tem solução para o problema mas sabe diagnosticar a causa: “é tudo culpa do capitalismo”. Apesar de bom, consumo = capitalismo, não é só isso. O sistema controlar as pessoas invés das pessoas controlarem o sistema, é uma total maluquice descontrolada, na qual de verdade, eu não sei a solução além de tentar mostrar um por um, que isso não pode estar certo.

  4. papillon disse:

    Meu texto ficou péssimo! Mas estou virada e morrendo de sono! Mas ao ler teu post me bateu um sentimento de desabafar, não resisti. O importante entender do meu comentário, é que. Não acho que seja só uma questão de gênero apesar de ter questões de gênero envolvidas, entende? Já li/vi/ouvi (vi = televisão, ouvi = pessoalmente), comentários de transexuais ou travestis maldosos sobre outros transexuais e travestis. A coisa está tão inserida na nossa sociedade, o método: Odio ao próximo pois você precisa ser melhor que ele, que pessoas que sofreram bullying, ou que são minorias excluídas por serem diferentes, não conseguem superar esse sentimento ruim e precisam humilhar o outro para se sentir bem. Entende? Acho importante frisar isso.

    ps. Não acho que nenhuma religião possa consertar essa ideologia inserida na nossa sociedade de odiar o outro, acho que apenas o racicionio lógico, o estudo e a busca por melhorar o mundo salva.

  5. papillon disse:

    Como eu realmente acho que muitas pessoas vão ler meu comentário e pensar, só Deus salva. Assistam Religulos, um documentário bem simples e rápido que explica porque eu não acho que religião ajuda em nada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s