Deixa a menina chorar em paz

lagrimaEsse ano eu realmente aprendi muita coisa, muita mesmo, e amadureci uns 3 anos em 6 meses, mas de todas as novas lições a mais importante com certeza foi aprender a chorar. Parece estranho dizer isso ao pensar que chorar foi a primeira coisa que fiz quando cheguei nesse mundão, mas é verdade. Apesar de sempre ter sido chorona, a ponto de chorar na TPM ao comer uma batata smile (ela ali, tão feliz, sorrindo pra mim…), eu nunca soube sofrer. A ideia de estar sofrendo me fazia sofrer mais que o sofrimento e eu logo dava um jeito de tentar mascarar a dor. Sempre fui adepta do levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima e me identificava com a letra que diz “Sorri, vai mentindo a tua dor. E ao notar que tu sorris todo mundo irá supor que és feliz”. Como todo mundo, já passei por vários momentos bem complicados na vida, mas nunca fui do tipo que vive se lamentando, sempre fui a amiga animada e a que chora a noite toda, mas acorda, coloca uma colher gelada no olho para desinchar as olheiras, se enche de maquiagem e sorri na maior cara de pau.

Achava que passaria a vida toda assim, até que 2013 chegou com sua voadora no peito. Foi um começo de ano fatídico, simplesmente não conseguia mais bancar a forte e passava horas seguidas chorando. No começo tinha vergonha e me sentia fraca, ainda mais com tantos conselhos do tipo “não chora não”, “deixa pra lá, esquece isso” e “supera”, mas aí de repente, como por acaso, um livro de poemas completos do Alberto Caeiro surgiu na minha frente e por algum motivo inexplicável eu senti muita vontade de lê-lo. Foi assim que eu comecei a perceber que estar triste é bonito, é poético. É estar vivo. Quem está sempre sorrindo na verdade já está meio morto. Quem tem vergonha de sofrer já se privou de estar em contato com a própria alma, que só pode ser conhecida nos momentos mais difíceis.  E foi só assim, sentindo o gosto de cada lágrima e de cada dor que consegui estar bem outra vez.

Se por acaso você que está lendo esse texto estiver triste por algum motivo, deixo claro que não gostaria de te dizer “fique bem”. Pelo contrário, te desejo que fique mal e que se permita sofrer cada uma de suas angústias. Uma amiga minha, em um dos melhores conselhos que já ouvi na vida,  uma vez me disse: “chora e toma banho”, “chora e lava louça”, “chora e pega o metrô”. Ou seja: chora, mas vive. Vive assim como dá, chorando mesmo, pois algo que é vivido pela metade nunca vai embora. Sofrer aos pouquinhos é sofrer para sempre, carregando sempre uma mágoa a ser remoída. E se alguém te perguntar se está bem, não tenha vergonha de dizer que não,  lembrando que, como já dizia Los Hermanos, “quem sempre quer vitória perde a glória de chorar”. Por fim, nada mais justo que concluir com ele, Alberto Caeiro:

Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
Seria mais feliz um momento … 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural… 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva … 
O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica… 
Assim é e assim seja

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2 respostas para Deixa a menina chorar em paz

  1. Sato disse:

    Alberto Caeiro é d+. A simplicidade da poesia me encanta. Gostei muito dos seus argumentos, mas continuo sendo a pessoa “levanta e sacode a poeira”, não devemos nos privar de direito de chorar, ou se entristecer, concordo! Mas toda vez, por algum momento, que existe a possibilidade de entristecer-me penso que a vida é curta demais para isso…

  2. Estou escrevendo um texto sobre como calamos o choro das crianças, e me indicaram esse texto. Não serviu somente para complementar o meu texto, mas para complementar uma reflexão que sempre tive e deixei guardada: a infelicidade é tabu.
    É tabu dizer que não estamos bem. Parece que vivemos para dizer que estamos bem, ou que pelo menos, estamos ficando bem!

    Adorei. Disse tudo o que eu queria dizer.
    Um beijo

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