Por que menstruar é quase pecado?

sangueLembro até hoje da primeira vez que soube que uma amiguinha já tinha menstruado: estávamos na 4ª série, na sala de aula, e quando uma das meninas — que por sinal já tinha o corpo mais desenvolvido, com um pouco de seio e cintura — levantou para ir ao banheiro, havia uma mancha de sangue na sua cadeira. Nem sei quem foi o primeiro a ver, mas acredito que tenha sido um menino e que ele logo alertou a todos: “creeeeedo, ela ta de chiiiiico! Olha a cadeira deeela”. A última recordação que tenho desse dia é um monte de gargalhadas, expressões de nojo e a pobre garotinha saindo correndo da sala, chorando.

Conforme fui crescendo, o ciclo menstrual foi se tornando parte da vida de mais e mais amigas, mas ainda assim ele raramente era discutido. Era preciso tomar cuidado para que algum menino não fuçasse as bolsas femininas e saísse correndo pelo pátio com um absorvente na mão, gritando que havia encontrado nas coisas da Fulana, enquanto todos riam e corriam dessa menina como se ela estivesse com uma doença contagiosa. A irmã mais nova de uma amiga passou uns dois meses roubando absorvente da mãe, até ser descoberta, porque não tinha coragem de contar que já havia menstruado. Apesar de muitas pessoa me cobrarem por ter menstruado pela primeira vez muito mais tarde que a média geral, acho que no fim das contas eu dei é sorte de ter sido temporariamente excluída desse universo cruel. Quando o conheci,abs porém, senti na pele todo o desespero para garantir que “a calça não está marcando o absorvente” e a vergonha quase mortal de ouvir alguém dizer: “moça, acho que sua calça manchou”. Estar menstruada, mesmo depois de adulta, é visto como algo sujo, feio, vergonhoso… quase pecado. Até mencionar isso em voz alta pode ser perigoso, então dizemos que estamos “naqueles dias”. Naqueles quais? Naqueles… você sabe.

Apesar de ser algo completamente natural e que acontece com TODAS as mulheres do mundo, o ciclo menstrual inteiro é muito discriminado. E é por isso que existem inúmeros tratamentos para deixar de menstruar e remédios para controlar a tensão pré menstrual. Em várias culturas as mulheres são consideradas impuras enquanto estão sangrando e são enviadas para um “retiro”, podendo conviver apenas com mulheres que também estejam menstruadas. Encarar tudo isso com tanto nojo e preconceito, no entanto, é rejeitar toda a beleza da natureza feminina.

Esses dias, enquanto tentava me livrar de tantos tabus enfiados na minha cabeça ao longo da vida, fiquei pensando na beleza de um ciclo menstrual: primeiro vem o período fértil, onde o mundo parece mais colorido, os homens mais bonitos, os seios maiores, os perfumes mais excitantes e a autoestima melhor. Depois de um tempo o mundo vai perdendo um pouco a graça, os homens se tornam irritantes, as pernas pesam, o sono aumenta, os seios incham de novo mas dessa vez doem, os olhos enchem de lágrima com comercial de margarina… e aí começam as cólicas, aquelas pontadas que significam o útero trabalhando, se contraindo na tentativa de expulsar do corpo tudo que já não será útil para a mulher. Então ficamos menstruadas, eliminando tudo que é antigo para abrir espaço para o novo. E o ciclo recomeça, mais uma vez, por muitas vezes, com toda sua energia e capacidade de gerar vidas. Sei que envolve sangue e desconfortos, mas ainda assim me parece lindo!

Pensando nisso tudo, comecei a me questionar como seria se apenas os homens menstruassem. Será que seria visto como algo tão asqueroso ou eles se gabariam do poder de gerar vidas e do sangue que sai com tanta força e determinação de seus corpos? Eles esconderiam de todos quando estivessem menstruados ou ficariam orgulhosos, como ficam por fazerem xixi em pé, e fariam até apostas para ver quem gasta mais absorventes por mês? Achou nojento? E por que quando é campeonato para ver quem faz xixi mais longe soa como uma molecagem engraçada?

florAcho que estamos nos preocupando com a coisa errada: não devemos esconder absorventes, tentar controlar a TPM, buscar tratamentos para parar de menstruar e sentir vergonha do nosso próprio sangue. Em vez disso deveríamos jogar o hábito de sempre inferiorizarmos tudo que é referente a mulheres no fundo das mochilas, tentar controlar os preconceitos, buscar viver em uma sociedade mais igualitária e nos envergonhar de tanta ignorância.

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