O inferno são os outros

infernoChegou cansada após um dia inteiro de trabalho. Não se recordava de quantas xícaras de café lhe haviam feito companhia enquanto tentava criar o anúncio pedido na semana passada. O prazo estava acabando, sua paciência também. Só queria comer qualquer bobagem na cozinha e cair no sofá — talvez conseguisse ler algumas páginas daquele livro que pegou emprestado com a irmã há mais de um mês e nunca terminou. Enquanto a porta da geladeira estava aberta, mais como um divã gelado do que como um espaço com comida, Mônica percebeu que a planta em cima do balcão já não tinha mais vida. Não se lembrava da última vez que havia regado o pequeno cactus, lembrancinha de casamento da melhor amiga. Como ia saber quanto de água aquela coisa precisava? Tudo bem, já sabia que o vasinho precisava ficar bastante no sol, mas ela não tinha o tempo de uma dona-de-casa que brinca de jardinagem. Aliás, que ideia mais absurda: dar uma planta para os convidados. Pegou um iogurte e jogou a planta no lixo, pensando que preferia ter recebido um cupcake, uma vela ou uma toalhinha. Se um dia se casasse as lembrancinhas seriam simples e prática, como ela.

Só então lembrou que passou o dia todo sem bateria no celular e precisava saber como a mãe enferma do seu namorado estava. Cinco chamadas perdidas. Retornou as ligações e, esquecendo de se desculpar pela ausência, começou a conversa dizendo que ainda bem que ele estava com o celular, porque ela havia tido um dia horrível e precisava mesmo conversar. Ele se magoou, a mãe tinha piorado e estava internada. Ela tentou explicar que esqueceu o carregador em casa porque saiu correndo de casa pela manhã, já que o irresponsável do colega com quem dividia o apartamento esqueceu de pagar uma das contas do mês e ela teve que fazer isso antes de ir trabalhar. Alegou que seu chefe  estava mal humorado e passou o dia todo cobrando uma entrega. Ok, ela realmente havia dito que terminaria antes o anúncio, mas não era culpa dela se o computador era lento. Além diso… “Chega!”, interrompeu Mauro, o namorado, “Eu também estou tendo um dia difícil, mas acho que você está ocupada demais com seus problemas para saber. Nos falamos amanhã.”

Mônica desligou o celular e chorou, se sentindo injustiçada. Desejou que as pessoas a entendessem e que parassem de cometer erros com ela. Porque, como já dizia Sartre, o inferno são os outros.

PS: Esse texto foi feito em referência a um dos maiores conselhos que já recebi na vida, vindo de um amigo colombiano: quando alguém erra, achamos que a pessoa é imatura, inconsequente ou má. Quando cometemos o mesmo erro, foi simplesmente por um lapso pontual.

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3 respostas para O inferno são os outros

  1. gardelin disse:

    ótimoo!

  2. Sato disse:

    Gostei bastante do ponto de vista!

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