A menina lagarta

Era uma vez uma garotinha que queria ser livre. Ela gostava de subir nas árvores para ver o mundo bem lá de cima, com a sensação de que se abrisse bem os braços poderia voar. Talvez não ainda, mas um dia, como faziam as lagartas verdes e gordas que a menina observava em seu pé de limão. Elas tampouco podiam alçar voo, mas, assim como a garotinha dos olhos castanhos, passavam o dia agarradas aos galhos com a certeza de que se perseverassem a  transformação viria. Por isso, apesar de todas suas amigas terem nojo das lagartas, a menina as adorava e pensava: “hoje nós somos estranhas, feias e vivemos presas às árvores e suas raízes, mas um dia, quando formos borboletas, seremos lindas. E por sermos lindas, seremos lives. Teremos asas próprias e o mundo será nosso”.

O tempo passou e a pobre “lagarta humana” se sentia cada vez mais infeliz e longe de ser uma linda borboleta. Aos 14 anos começou um regime e passou a comer cada vez menos, inspirada nas moças que via na televisão. Além disso, alisou seus longos cachos e passou a pintar as unhas duas vezes por semana. Todos esses artifícios pareciam o casulo ideal, mas os anos seguiram e a jovem ainda não se sentia com asas.

Após muitas tentativas frustradas e desmaios por falta de nutrientes, a jovem dos olhos castanhos começou a acreditar que talvez houvessem lagartas que nunca viram borboletas — e provavelmente ela era uma dessas. Conformada de que era um “caso perdido”, a garota passou a dedicar seu tempo a outras atividades: as horas que antes eram gastas entre secadores e chapinhas foram preenchidas lendo novos livros que ela havia descoberto na biblioteca; os regimes torturantes foram substituídos por almoços com amigos e as calças justas e desconfortáveis que valorizavam o bumbum foram doadas, abrindo espaço na gaveta para saias leves que eram melhores para dançar.

Dez anos depois, quando a mulher dos olhos castanhos e cabelos revoltos passeava com seu cachorro no parque e mal se lembrava do quanto a criança que fora pensava em lagartas e suas transformações, uma menina de 6 anos apertou a mão de sua mãe e disse: “Olha que moça bonita, mãe… aquela que está rolando na grama com um cachorrinho e rindo muito”. A mãe, que criava a filha para ser uma bela dama, fechou a cara e falou: “É, ela não é tão feia, mas devia se vestir melhor, ter mais compostura e prender esse cabelo”. A criança, fascinada com a cena, respondeu: “Mas mamãe, ela é tão linda assim… parece uma borboleta”.

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Uma resposta para A menina lagarta

  1. Sato disse:

    Que essa borboleta nunca pare de voar…

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