Os jardins de Rubem Alves

Você acredita em amor à primeira vista? Quatro ingleses de cabelo exótico e dentes tortos diriam que estão seguros de que ele acontece o tempo todo (talvez eles não diriam exatamente assim, mas eu diria, nessa tradução de brasileira amante de Beatles que vive na Argentina). Enquanto pensamos se sim ou se não, acordei com uma vontade quase de gestante de cultura. Daquelas que não tem como negar, não importando se é de madrugada e não ta na época. Aí abri meu computador e comecei a procurar, não sei bem o quê, como um cão que sabe que tem um osso enterrado, só não lembra aonde. Então cavei aqui, farejei ali, revirei acolá… e encontrei! Um texto que me chamou a atenção pela imagem: uma pequena fruta linda da qual pingava uma gota d’água e parecia deliciosamente doce. E o tal do texto falava de um tal escritor que todo mundo alguma vez já deve ter ouvido falar: Rubem Alves. E, como acontece com todo devorador de palavras que dá de cara com um texto bem escrito, lá fui abrir outra aba para conhecer o site indicado no texto: A Casa de Rubem Alves.

Abri esperando encontrar um site típico, dividido por tópicos como contos, poemas, obras e onde comprar. Para minha surpresa, porém, eu me senti em uma excursão da escola para um importante edifício histórico, com a diferença de que não havia professor para nos guiar. Por onde você prefere começar? Sabia que isso, segundo o anfitrião, pode dizer muito sobre você? Pelos quartos, aonde dormem a poesia e os badulaques, pela cozinha, com seus encantadores fogões à lenha, pelo hall, como manda a boa educação, por onde o tempo foge ou aproveitando o dia? Após refletir muito sobre as tentações da minha quase invasão, eu resolvi entrar pelo jardim. Assim, se eu não gostasse eu podia dar só uma voltinha, cheirar algumas flores, admirar as abelhas, molhar as mãos em um laguinho e brincar com as borboletas. O “problema” é que eu gostei — e como gostei. Aí me chamaram para um café, fica pra provar a sopa, vem conhecer a biblioteca.  E quando eu vi já estava ali, perdendo a hora do meu próprio almoço enquanto me alimentava da magia, do encanto e da pureza dos textos de Rubem Alves.

O amor que nascia era tanto que eu não podia guardar ele para mim. Amor inesperado, à primeira vista (e a vigésima também), daqueles que você precisa gritar para todo mundo, ainda que isso te custe o rótulo de piegas (amar, seja lá o que for, está tão demodé quanto dizer piegas… e talvez demodé). Como eu não ligo muito para isso, saí nas ruas (hoje em dia, além de os jovens falarem foto e não retrato, as avenidas são virtuais) gritando meu novo amor. Copiei um trecho, comentei com outro, indiquei mais algum. A vontade que eu tinha era de Rubenizar o mundo. Não contente com essa paixão quase reprimida, eu resolvi me declarar. Sim, ele precisava saber que eu queria pedir a mão de todos os seus textos em casamento, não me importando a idade, sexo ou religião. Então, sem contar para ninguém, eu achei a caixa de correio da Casa e mandei uma mensagem. Um e-mail meio bobo, só para dizer que não sabia o que dizer, mas gostaria de contar que estou enamorada pela minha nova descoberta e agradecer por ter tornado meu mundo um pouco mais doce, com jardins em minha alma.

Com a sensação de que era muita ingenuidade da minha parte mandar um e-mail para alguém tão conhecido e reconhecido e esperar por algo que não fosse uma resposta automática ou um modelo-padrão criado por um assessor de imprensa, eu desliguei o computador e saí pra rua, dessa vez da de verdade, feita de asfalto, gente e árvores, sonhando com cada palavra dos meus novos namorados: aquela frase dos morangos, a ideia de um futuro sideral e o tal do frescobol. Quando voltei, para minha surpresa, a resposta no fundo tão sonhada estava ali, pronta para ser lida na minha caixa de entrada. Cheio de poesia e atenção, Rubem Alves respondeu ao meu e-mail, no mesmo dia, dizendo que meu contato havia alegrado seu coração. Além disso e de outras fofuras mais, ele me convocou a “então plantar jardins”, escrevendo quando tiver vontade.

Depois de quase cair da cadeira, mal podendo acreditar que no meu correio eletrônico tem um e-mail do Rubem Alves, eu fiquei pensando em quantas vezes amei um trabalho e não falei. Aquele quadro que tirei uma foto e até anotei o nome do pintor em um guardanapo amassado, para buscar depois, mas esqueci perdido no fundo da bolsa. Aquela fotografia que me deixou com os olhos marejados e eu, distraída, saí sem parabenizar à alma sensível que capturou o preciso momento. Aquela música na escada do metrô, que me fez virar a cabeça e pensar em parar, mas senti vergonha e segui como se passos duros e sorrisos fechados fossem capazes de matá-la? Por fim, além de fazer mais uma tentativa de Rubenizar o mundo, escrevo na talvez ilusória intenção de plantar jardins, porque ainda que nenhuma semente vingue, algo já cria raízes em mim.

Nota de canapé: As palavras em itálico são referências a textos e frases de Rubem Alves, que eu preferi não citar para que cada um possa fazer sua própria excursão, assim como fiz.

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