Porque as palavras dizem

O problema das palavras é que elas dizem. Talvez soe um pouco estranho um texto que começa assim, mas não era bem isso que eu queria dizer. Mas acontece que eu não sei desenhar. Bem que tentei, juro. Minha irmã mais velha passava horas olhando para personagens do videogame e copiando seus traços para o papel. E eu mal podia sair dos esboços de uma casinha. Talvez se eu soubesse pintar eu poderia te mostrar, mas o máximo que consegui foi entender que se começamos a “pintar deitado”, não podemos mudar no meio da pintura para “em pé”. Nunca esquecerei do kit de pintura que ganhei, com várias ilustrações de animais para colorir. O urso panda era o mais cobiçado e fiquei radiante por eu ser a dona do “jogo”, podendo ter o mais valioso tesouro para mim. Acho que tentei com o verde, não gostei, passei pro roxo… talvez se eu pintar só essa partezinha em pé ninguém vai notar, minha mão está cansada… e, por fim, o urso terminou tão feio que eu chorei, arrependida por não ter dado ele para alguém que o deixasse lindo. Claro, tem a fotografia. E nisso até que não mando tão mal, mas acontece que eu só gosto de fotografar bicho: aquela baratinha morta, o gato de rua, o fochinho do meu cachorro, a formiga com uma folha e a aranha no banheiro. E o que eu quero dizer não é só isso.

Antes de aprender a ler, eu sentava no chão com meus gibis e criava minhas próprias histórias, a partir das imagens. Era um universo mágico, porque o mesmo gibi, que em teoria tinha umas cinco historinhas, para mim podia ter infinitas, porque bastava passar uma semana sem “lê-lo” e pronto, os desenhos podiam representar outra história. Agora a Magali não dizia mais que queria comer uma melancia, ela estava, na verdade, procurando pelo Mingau. Aí eu aprendi a ler e percebi que nenhuma das minhas muitas historinhas era igual ao que estava escrito. E aí nunca mais criei histórias com os gibis: eu lia, porque as palavras dizem.

Toda vez que eu fazia uma prova e uma das questões era um quadro famoso, ou algo assim, e perguntavam “o que o pintor da obra quis dizer” eu já suava frio. Como vou saber o que ele quis dizer? Posso te contar o que isso me diz, mas nunca o que ele quis dizer ou que você acha que ele disse. E, claro, eu sempre assinalava a alternativa errada. Talvez por isso contratos sejam escritos e não desenhados. Acho que é por essa razão que não podemos assinar um formulário com uma nuvem: porque as palavras dizem. Quantas vezes já não argumentamos, contrariados: “mas você disse!”?

Voltando ao assunto, eu acordei querendo escrever, não porque eu queria dizer, mas porque eu sinto. E adoraria não ser lida, mas imaginada, não escrita, mas suspeitada. Queria que além de cada palavra que eu usei, um leitor de coração leve percebesse as que não foram escolhidas. Que para cada sentimento exposto, alguém de alma muito sublime notasse o que ficou guardado. Que para cada pedido sutilmente incluído, fosse acrescentado, antes, um “não”. Eu não queria simplesmente contar minha vida como um conto… queria que cada pessoa pudesse aumentar um ponto.

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