Que a pobreza não se torne paisagem

Comunidade Padroeira, Osasco (SP).

Em 17 de outubro é celebrado o Dia Internacional de Erradicação da Pobreza. A data, criada em 1993, tem como objetivo conscientizar a população e promover debates sobre maneiras de minimizar e, aos poucos, erradicar a pobreza em todos os países, principalmente os em desenvolvimento, como o Brasil. Esse dia, que até antes de eu conhecer a ONG Teto-Brasil (organização sem fins lucrativos que trabalha por uma sociedade mais justa e sem pobreza) era uma data qualquer, me faz pensar muito não apenas em como o mundo é desigual, mas também no quanto nos acostumamos com isso. Quantas vezes banalizamos o quase tropeçar num mendigo? Quantas vezes realmente olhamos para o corpo no chão, para verificar se ainda há vida? Quantas vezes atravessamos a rua ao ver que alguém se aproxima para pedir esmola? Quantos vidros são fechados para não ouvir a criança no farol? A verdade é que a gente se acostuma, mas não devia (Marina Colasanti).

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a linha de extrema pobreza no país é R$70,00 per capita por mês — o que coloca aproximadamente 16 milhões de brasileiros nessa condição, de acordo com o Censo de 2010. Seria como construir aproximadamente 210 estádios do Maracanã, o maior do país, e colocar cada pessoa considerada por esse critério como extremamente pobre em um lugar reservado. Nesse caso, porém, a partida que acontecerá não terá nada de espetáculo. Sem show, sem gol, sem craques. Apenas descaso, fome, abandono e luta sem muita ambição de conseguir vencer o jogo, mas tentando pelo menos terminá-lo vivo. A pobreza, definida tão simplesmente quando falamos em números, é fria, traiçoeira e cruel. Mais do que ganhar R$75,00 por mês — o que dá para alguém em São Paulo ir e voltar do trabalho de ônibus ou metrô por 12 dias –, essas pessoas precisam ser vistas como gente.

Eu, que até meus 20 anos nunca havia entrado em um favela, acredito que ganhar mais do que a linha da extrema pobreza não te tira de uma situação extremamente miserável. Não enquanto se vive em barracos feitos de madeirite, papelão e lona. Não enquanto seus filhos pequenos aprendem a andar em um chão de terra batida. Não enquanto crianças brincam no lixo e correm descalças no esgoto que passa em frente a sua casa e esfrega a miséria na sua cara. Não enquanto a geladeira que serve apenas para abrigar  uma garrafa plástica cheia de água e escorar a parede do quarto gargalha de seu corpo faminto e magro.

Todas as noites em que faz muito frio, enquanto eu tomo uma sopa quente no sofá, enrolada no edredom, e vejo meu cachorro dormir quentinho em cima da almofada, eu sinto tristeza e indignação. Eu me revolto por saber que enquanto essa cena romântica de inverno acontece em minha casa, há pessoas dormindo na rua. Há pessoas morrendo de frio, literalmente, nas calçadas. Alguém que no dia seguinte será apenas mais uma estatística e um corpo atrapalhando o tráfego. Será que isso é culpa social? Algo como se sentir mal por não ser pobre e não passar necessidade? Depois de muito pensar sobre isso, creio que não. Apesar de achar que para acabarmos com a desigualdade social precisamos estar dispostos a abrir mão de muitos luxos e confortos, não acredito que culpa é o sentimento que brota quando decidimos abrir os olhos para a pobreza. O que sinto surgir em mim desde que decidi encarar a realidade em que vivo é compaixão, noção de que agora são eles, mas um dia poderá ser eu, senso de justiça e, acima de tudo, a certeza de que eu não posso permitir que a pobreza se torne paisagem, tão comum e sem significado quanto o poste que vejo da minha janela.

Obs.: confesso não ter certeza sobre a capacidade máxima do Maracanã, então calculei pela previsão de lugares para a Copa de 2014.

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