É no não que se descobre de verdade

Quando ela se foi eu quis ir junto. Pensei que não suportaria toda a ausência e que seria capaz de me afogar entre tantas lágrimas. Uma década e meia de vida parecia uma eternidade e já poderia acabar. E aos poucos, em meio a dor, cicatrizes, fuga, gritos, silêncios, abandonos e pesadelos, apareceu a independência, a compreensão, a consciência de minha força e a percepção de que a vida realmente é curta e efêmera, mas, acima de tudo, é rara.

Quando ele me deixou eu pensei que não poderia suportar. Eu chorei, rasguei todas suas cartas, apaguei mensagens, joguei aliança pela janela, pensei em me jogar da janela, bati portas e telefone, amaldiçoei todas as promessas de eternidade e desacreditei do amor. Eu escondi urso de pelúcia no fundo do armário, falei mal dele pra todos meus amigos e planejei nunca mais me apaixonar. E enquanto arquitetava tudo isso eu aprendi que respeito é mais importante que amor, que carinho não se pede, que conversar quando a raiva ainda não passou só piora. Eu aprendi da pior maneira que insistir no erro só desgasta e descobri que não, eu não gosto é de brigar.

Quando ouviu dizer que poderia ter problemas para engravidar ela, logo ela, sempre tão independente e moderna, sentiu medo. Talvez ela não os tivesse se fosse por decisão própria. Talvez nunca nem parasse para pensar nisso. Mas ao ser apresentada a essa dificuldade percebeu que quer ser mãe. E então descobriu dentro de si seus instintos maternos e se abriu para novas possibilidades, considerando opções nunca pensadas.

Imagem: Thiago Pinheiro

Quando eles não me deram aquela vaga de emprego eu senti frustração. Pensei que talvez eu que não fosse boa o suficiente, que deveria insistir um pouco mais, que o mais sensato era esperar pelo momento ideal. Mas caramba, já não tínhamos combinado? Essa promessa já não era antiga? Por que enquanto aguardava eu era incumbida de cada vez mais tarefas? Se eu não era qualificada, porque tanta confiança? Aos poucos os sentimentos de incerteza e insegurança foram criando outra forma. E nessa metamorfose veio a sensação de que a vida é mais que isso e a coragem de fazer o que precisava ser feito. Perdi a segurança do escritório e ganhei a ousadia de arriscar. Quando decidi desistir da certeza das raízes optei pelas asas do trapézio.

E assim, de perda em perda, de frustração em frustração, de medo em medo, em cada lágrima derramada e em cada ciclo que se encerrava eu percebi que cada não traz consigo seus melhores amigos: aqueles inseparáveis, os “sins”. Cada não, apesar da tristeza que ele nos dá, é uma oportunidade de aprender, de crescer, de pegar uma nova folha, trocar a cor do giz de cera e começar a desenhar tudo de novo — ou simplesmente colorir o horizonte.

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