Eu faço por amor, mas cobro em dinheiro

Se o cano do banheiro estoura e você não faz a menor ideia de como arrumar aquilo, nada mais natural que chamar um encanador, assim como chamaria um eletricista para consertar o chuveiro queimado e um médico para atender seu filho, que piorou da gripe na madrugada e está ardendo em febre.  Consequentemente, nada mais natural que pagar por esses serviços (pelo menos no caso de o pediatra ser particular). Afinal, essas pessoas estão nos prestando um serviço. Se entender isso é  simples, por que é tão complicado pagar por “serviços artísticos e intelectuais” como fotografia, pinturas, palestras especializadas e música?

Esses dias meu chefe, que é um dos grandes nomes do jornalismo científico, editor-chefe da Scientific American Brasil, autor de livros e doutor pela USP, foi convidado para dar uma palestra em uma universidade pública de Manaus. Após algumas trocas de e-mail ele foi informado que “se fosse preciso a instituição poderia pagar a hospedagem dele no Amazonas”. Meio sem entender (ou sem querer acreditar), ele questionou se também pagariam a passagem e qual seria o “cachê” pela palestra. A resposta veio cheia de indignação: como ele tinha coragem de cobrar para dar uma palestra sobre ciência? E pior, como ele era capaz de fazer isso com uma universidade pública? Por fim o cara queria negociar um valor a ser pago, mas meu chefe já tinha perdido o tesão de participar do evento — não apenas pela falta de pagamento, mas pelo absurdo de uma universidade ainda ter um pensamento tão pequeno. Há quem diga que “é só uma palestra e que cobrar para fazer isso é abusivo”. Se é dessa maneira, por que não chamar qualquer um? Por querermos alguém especializado? Se a resposta for sim, então por que  a pessoa não deve receber para executar o trabalho dela?

Outro exemplo bem próximo de mim é minha irmã, que é arquiteta e fotógrafa, duas profissões ainda muito desvalorizadas. Não raro eu ouço alguém pedir para ela fazer uma planta ou registrar um evento — de graça, claro. Se você acha que não custa nada fazer “um desenhinho”, pegue sua caixa de lápis de cor e crie sua própria planta. Se foto é tudo igual, tire foto do celular. A questão aqui não é arrogância ou prepotência, é qualificação, experiência e técnica. Ainda que fosse um dom natural, é um diferencial que se transforma em um serviço. E serviços, em um país que adota como sistema o capitalismo, são cobrados.

Com músicos isso também é muito comum: os caras praticam, fazem cursos, se reúnem todo fim de semana, ensaiam… e são convidados a se apresentar de graça em um barzinho. Como se o local estivesse fazendo um favor de deixar a banda divulgar seu som. Claro que em alguns casos as parcerias são úteis, mas em geral essa não é a real ideia da proposta. Já vi casos até de o dono do bar ficar ofendido com o pedido de cachê e dizer que “essa banda está muito exigente para quem ainda nem é famoso”.

Mais do que deixar os profissionais sem dinheiro, esse tipo de atitude desvaloriza as carreiras e desmotiva quem pretenda segui-las. O clichê é tão forte que já vi alguns cientistas e artistas dizendo que escolheram essas profissões por amor, não por dinheiro. Concordo que é admirável decidir seu futuro por paixão, mas porque as duas coisas precisam estar separadas? Além de ser uma forma de ajudar o desenvolvimento do país como um todo, incentivar a arte, a ciência e o desenvolvimento intelectual é tornar o mundo um lugar mais bonito e agradável de se viver.

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7 respostas para Eu faço por amor, mas cobro em dinheiro

  1. Realmente. Que digam os professores, sempre confundidos com filantropos, com figuras esfarrapadas que sofrem as agruras da sala de aula apenas por amor à profissão. Pra salvar o mundo. Pelo amor de ensinar. Mas como ter ‘apenas amor’ pelo que faz, nos dias de hoje, enquanto se está preocupado em conseguir pagar as contas? Como Platão ensinou, professor é aquele que não cobra nada pra te tirar do fundo da caverna, da escuridão. Daí deve ter vindo a mentalidade tão desfavorável aos que fazem trabalho intelectual.

    • deboraqsantos disse:

      Thiago, sempre que falam em professor eu lembro da clássica “você é só professor ou trabalha também?”, que demonstra muito isso que você disse. A sua referência a Platão foi muito boa. Não sei se realmente a mentalidade atual é derivada desse pensamento platônico, mas com certeza ilustra muito bem a situação contemporânea.

  2. Pedro disse:

    Acho que isso está acontecendo em qualquer ambito profissional, infelizmente. Eu, como médico, sou, com uma frequencia inimaginável, contatado por amigos e até meros conhecidos, para fazer uma “consultinha”, dar uma “olhadinha” e para prescrever medicamentos dos quais não se tem acesso sem receita em uma farmácia. Claro que jamais negaria atendimento a qualquer paciente necessitado de um serviço médico, agora, consultas através de mídias sociais, mensagem de celular e frequentes requisiçoes de atestado para “faltar no trabalho e pegar um sol no guarujá”, já me deixam descrente e com um sentimento de desvalorização da minha profissão e do longo tempo que levei e que, ainda levo, estudando e me qualificando para ser um profissinal de excelência. Penoso!

    • deboraqsantos disse:

      Pedro, seu comentário me lembrou da história do irmão de um amigo meu, que é veterinário. Toda vez que alguém pede pra ele “dar uma olhadinha” ele diz, em tom de brincadeira: “A olhadinha é 80 reais, a consulta é 60. Qual você vai querer?”. Brincadeiras de lado, realmente é frustrante ver tanta dedicação não reconhecida.

  3. meninaoniria disse:

    Sou diretora de fotografia e trabalho com cinema na Espanha, e aqui também acontece isso, cada vez mais. Antes sim, eu aceitava pequenos projetos como curta-metragens pra ganhar experiência, até perceber que grandes produtoras queriam se aproveitar disso e começaram a inventar novas formas de financiamento. Como? Sem pagar a equipe, usando o dinheiro só pra material, pro resultado ser técnicamente bom e pra todo mundo voltar pra casa feliz pela “experiência”. Uma puta duma sacanagem. Eu sou das poucas que já faz algum tempo só aceito um trabalho se for um TRABALHO, se me pagarem por isso, nao uma “colaboraçao”, afinal, sou capaz de valorizar muito a minha profissao, já tenho a experiência necessária e acho que tenho o dever moral de fazê-lo. O problema é mudar a ideia que as pessoas têm disso, ainda. Eu vou bater o pé até conseguir!

    • deboraqsantos disse:

      Nathalia, se houvesse mais profissionais determinados como você isso mudaria muito. É ruim, porque muitas vezes a pessoa recusa uma oferta dessas, por experiência, e outra pega. Então fica sempre aquela de “se você não quer tem quem queira”. Se todo mundo recusasse os empregadores teriam que mudar de postura. O complicado é que tem gente que aceita não por não se valorizar, mas porque realmente precisa ou acredita que “é assim mesmo”. Ainda assim, parabéns por estar fazendo sua parte. E boa sorte 😉

  4. Olivia disse:

    É uma realidade para muitos profissionais, infelizmente! Reconheço isso como terapeuta corporal e floral. Embora quase todo mundo considere o trabalho interessante, incrível, na hora de contratar para si, o trabalho desmerece importância.

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