Nostalgia

Quando eu era criança não existia Orkut nem Facebook. Não existia nem mesmo ICQ. Meus amigos eram as meninas da minha rua e o pessoal lá da escola. Às vezes eu ficava amiga dos amigos da minha irmã, só para variar. As fotos eram de revelar, na expectativa de não ter queimado bem a que eu queria, e o álbum ficava guardado lá em casa, para dividir com as visitas. Quando não tinha nada de muito útil para fazer (como ir à escola, fazer lição ou limpar a casa) eu gostava de ficar no quintal brincando com meus cachorros. Acho que o Floquinho seria mais feliz se eu ainda não tivesse um perfil no Facebook.

Escrever sempre foi um dos passatempos, mas fazia isso deitada na cama ou no sofá, com minhas folhas de fichário. Diria que mais que hobby: compulsão. Mas talvez os textos fossem mais sinceros, porque eles ficavam guardados no fundo da caixa de sapatos que ninguém iria ver. Eram arquivados junto com as cartas que trocava com meus amigos. A emoção de ver uma cartinha debaixo da porta não se parece com o novo e-mail na caixa de entrada. Além disso eu cozinhava mais e ganhei até uma batedeira aos 12 anos. Foi um dos melhores presentes, mas hoje talvez eu pedisse um computador. Algumas horas do dia eram gastas recortando novas receitas ou copiando-as para meu caderno, com orgulho de ele estar cada dia mais gordinho.

Eu gostava também de ouvir música, mas não tanto quanto minha irmã. Ela ainda adora fazer isso, mas agora geralmente ela usa fone. Acho que nós nos falávamos mais. Íamos para a cama cedo, mas dormíamos de madrugada, falando sobre a vida que não era fato sabido, porque não estava exposta em páginas virtuais. Para matar o tempo nós inventávamos músicas idiotas e fazíamos as experiências do X-Tudo. Como a vida era menos compartilhada, à noite era incrível sentarmos juntos para jantar e contar sobre o dia.

Às vezes me pergunto se sou antissocial demais ou se o excesso de gente e informação sufoca mais alguém. Eu quero sair despercebida, com algumas roupas na mala, um livro em espanhol, um bom samba brasileiro e uma foto dele. Eu quero não fazer alarde e me esconder em novos ares, para que assim possa respirar. Eu quero sumir até que todos me esqueçam. Mas se por acaso ainda lembrar de mim, compre o selo mais bonito e me envie uma carta…

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6 respostas para Nostalgia

  1. Taí. Tava pensando nisso hoje, quando você me ligou. Estar “desconectada” da vida virtual e conectada com a real é difícil, tem que ser mais planejado, porque senão, quando vemos, panram!, passamos um dia todo no pc. Brigada pela lembrança do passado e pela lembrança de estar mais no presente!

  2. Sato disse:

    Passa o endereço, quando estiver estabelecida!

  3. Aurora disse:

    Não esqueça de deixar o endereço para pode mandar a carta, com certeza vou sentir saudade!

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