Morro da Favela

Diga-me com que anda e te direi quem é”. Não faço ideia de quem criou esse chavão, mas com certeza ele pode ser derrubado pelo fotógrafo Maurício Hora. Nascido e criado no Morro da Providência, em uma zona portuária do Rio de Janeiro, Maurício conta sua história em Morro da Favela, um “livro-história-em-quadrinhos” feito em parceria com o roteirista e ilustrador André Diniz e publicado pela editora Barba Negra em 2011.

O Morro da Providência, como mostra o título do livro, já foi chamado de Morro da Favela, quando soldados da Guerra de Canudos usavam a região cheia do arbusto favela, típico da caatinga baiana, para atacar o vilarejo de Antônio Conselheiro.  Com o fim do conflito e o sucesso contra Canudos, os soldados foram para o Rio de Janeiro receber as moradias prometidas como recompensa pelo governo. Como elas nunca eram de fato entregues, em 1897 os soldados cansaram de esperar e começaram a ocupar o morro, apelidado de Morro da Favela. Com o tempo o termo “favela” passou a ser usado para designar as ocupações desordenadas em geral e o Morro teve seu nome alterado para Morro da Providência.

Favela (Fa.ve.la) s.f.

1-      Bras. Comunidade de moradias construídas principalmente nas encostas dos morros das áreas urbanas.

2-      Bras. p. ext. pej. Qualquer local de mau aspecto

3-      Bot. Planta sertaneja

Com linguagem informal e ilustrações em preto e branco, a história com esqueleto biográfico ilustra a realidade das favelas e, mais do que mostrar o trajeto de um fotógrafo favelado, como Maurício mesmo se define, prova que nem todo favelado é vagabundo ou ladrão. Nos quadrinhos o fotógrafo autodidata é filho de Eunice, que tinha esquizofrenia, e Luiz, um bicheiro que criou o tráfico como conhecemos hoje, com venda de drogas nas famosas bocas de fumo. Antes do pai de Maurício, os traficantes vendiam apenas pequenas quantidades dentro da própria casa. Apesar de o pai estar frequentemente na prisão e Luizinho ser sempre discriminado pelos amigos por ser “filho de bandido”, o garoto, criado mais pela mãe e pelos avôs tem verdadeira adoração pelo pai.

De que adianta arrumar meu armário, se a polícia vinha a toda hora e espalhava minhas coisas pelo chão? Eu guardava tudo de qualquer jeito. Até hoje não sei deixar o meu armário em ordem

Sob um ponto de vista diferente do que muitas vezes é mostrado pela mídia, os quadrinhos revelam outras facetas do tráfico, dos moradores da favela e, principalmente, da polícia – que como relatam os autores,  antes estava mais preocupada em prender vagabundo que andava sem documento e não subia o morro para pegar sua parte nos lucros do tráfico. Em uma das imagens mais fortes do livro, que dispensa balões de diálogo, um garoto de oito anos que ia para o culto acaba no meio de um tiroteio envolvendo a polícia e é baleado por acidente em um corredor. Na manhã seguinte o corpo do garoto aparece estampado nos jornais: caído, ensanguentado, com uma arma na mão e a legenda: “Bandido aos oito anos”.

O termo bandido é complicado, né? Pra quem mora no morro, o bandido é a polícia. Eles dizem que sobem pra nos proteger, mas não é isso o que rola. É tudo muito confuso

Convencido de que “filho de peixe às vezes peixinho NÃO é”, Luizinho começa a trabalhar cedo, aos 13. Com 16 anos, dos 21 ourives da oficina, Luizinho era o único que não usava drogas. Sobrinho de fotógrafo e vendo o laboratório do tio como um mundo mágico, o garoto troca um mês de salário por uma máquina fotográfica usada e, após ganhar o laboratório de fotografia do tio, começa a fazer do universo das imagens seu novo mundo e uma forma de ganhar a vida. Mais do que um exemplo de superação, a obra de André e Maurício, que conta com fotografias reais do Morro da Favela nas últimas páginas, é um retrato da história das favelas de nosso país e, principalmente, uma denúncia social.

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