Não foi por acaso que virou herói

Nem sempre as pessoas são como gostaríamos que fossem. Pior que isso, no entanto, é quando elas deixam de ser aquilo que acreditávamos que eram. Nesses momentos eu me pergunto se simplesmente se transformaram ou se na verdade nunca foram. Se nunca foram, porque passei tantos anos acreditando em montagens? Por que nunca percebi e me entreguei ao universo de fantasias doces que, por fim, são tão amargas? Nunca soube bem explicar o que aconteceu. Talvez pela velocidade com que aconteceu, talvez porque lembrar dói ou porque “é melhor deixar como está”.

Mais triste ainda é quando a personalidade e o caráter colocados em xeque são daqueles que deram parte de si, literalmente, a nossa existência. Descobrir que pai e mãe não é perfeito dói. Dói mais que bater o dedinho do pé na quina da cama. E nesse caso não há beijinho que cure. Nas minhas lembranças ele é forte, muito, mas muito alto, divertido, brincalhão, carinhoso e protetor. No confuso mundo das minhas recordações ele é o cara que eu queria que meu marido fosse. Mas aí eu cresci e percebi que ele nem é tão alto assim — talvez nem tão forte. Eu fiquei sabendo que ele chora e ouvi dizer que perguntou pela minha opinião (há quem diga que ele tem medo dela). Desconfiei que ele tem seus próprios sonhos e que nem sempre eu sou o centro das atenções dele. De alguma forma até cheguei a pensar que ele tem vida própria e por vezes se ausenta da minha. Eu tentei acreditar que não preciso dele.

Mas então ele vem e percebe o que ninguém mais vê. Ele sorri e minha vida se enche de cor. A gente conversa e o mundo para. Pedimos um novo prato, ele fica confuso e pede ajuda. Eu sorrio e sinto que meu coração fica um pouco mais quente cada vez que posso segurar sua mão. E então a gente tira foto, ele tem vergonha, ele se atrapalha. Eu acho fofo… Ele lembra a mim e a minha irmã que nos criou para não sermos como todas. Ele se orgulha, entre risos e com a voz fina e enjoada, que não nos educou para falarmos “tipo assim” ou dizer “aaaai, liiinda” para as amigas. Nós gargalhamos. Eu volto a ser sua princesa, sua “Rochinha” e sua eterna parceira de lutinhas rolando no chão da sala.

“E vocês estão bem profissionalmente?” Começo a responder sobre minha carga horária, meu salário… mas ele me corta: “Não, quis dizer se estão felizes com o que estão fazendo”. E todas as dúvidas evaporam, como subia pelo ar a fumacinha do nosso café, e me lembro que não foi à toa que ele me virou meu herói. Por fim entendo que ele não é perfeito, que ele vai constantemente mudar, assim como eu, e que em alguns períodos ele não vai ser o que eu queria que fosse. Mas aceito que assim como ele me estendeu a mão todas as vezes que eu caí, quando ele soltava a bicicleta por acreditar que eu já sabia andar sem rodinhas, eu também sempre estarei aqui, não importa quantas vezes ele caia. E talvez a gente nunca aprenda a caminhar juntos,ao mesmo tempo, mas enquanto isso a gente vai se amando. E isso basta.

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