Anorexia, obesidade e a ditadura da beleza

As curvas de Marilyn Monroe são capazes de desorientar qualquer homem e despertar inveja em muitas mulheres. Mas bastou uma década para que todos os olhos se voltassem para outra nova estrela: Twiggy Lawson. Considerada a primeira top model do mundo, a jovem inglesa exibia um corpo extremamente magro e ossos proeminentes. A partir de então o mundo começou a cobiçar suas (falta de) curvas e as pobres mortais consumiam todo tipo de conteúdo que “ensinasse” como emagrecer com dietas milagrosas e sequências infinitas de exercícios.

Marilyn Monroe, musa da década de 50.

Ainda que vistas como referência de beleza no mundo e consideradas bonitas por natureza, grande parte das brasileiras queria ter mais osso e menos carne. Por décadas quase tudo era válido para tentar entrar em uma calça número 38 que, cá entre nós, na realidade era um 36. Anorexia era lugar comum no mundo da moda, enquanto agências escondiam dados sobre mortes de profissionais que pesavam cerca de 30kg e batalhavam por um corpo mais esguio que era humanamente impossível. Então de repente um nome começou a ser citado com mais frequência: Gisele Bündchen. A modelo brasileira de seios fartos e quadris arredondados, magra mas fora dos padrões da época, passo a passo caía nas graças do universo da moda. Uma nova revolução foi feita e atualmente modelos muito magras chegam a ser proibidas de trabalhar. Campanhas publicitárias que exibam esse biotipo são alvo de fúria e boicote em redes sociais.

Twiggy, referência nos anos 60.

Os quilinhos a mais nas passarelas permitiram que muitas garotas pudessem realizar o sonho de ser modelo e salvou muitas de transtornos como anorexia e bulimia, mas nem todos estavam contentes. Alguns queriam mais que isso, queriam que as mulheres consideradas gordinhas também pudessem entrar nessa onda. Surgiu o termo “plus size”, referindo-se a modelos que usavam tamanhos maiores. Revistas de renome como a Elle francesa e a Vogue Itália publicaram ensaios com modelos nesse novo padrão e a tendência pegou. Agora mulheres que estão acima do peso encontram seções dedicadas a elas em lojas de roupas e têm a oportunidade de participar de concursos como “Miss Brasil Plus Size”.

Gisele Bündchen: revolução nas passarelas.

Analisando a evolução dos padrões de beleza, é impossível negar que de forma geral eles ditam o comportamento (pelo menos o feminino) do mundo. Assim como exultávamos modelos como Twiggy em tempos de anorexia, nos orgulhamos da nova inclusão que veio com o plus size em tempo de epidemia de obesidade. Nos Estados Unidos a doença já é considerada um caso sério de saúde pública e, segundo dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (BGE), se mantivermos nosso ritmo de ganho de peso, em 10 anos a obesidade no Brasil se igualará à americana. De acordo com a pesquisa o sobrepeso atinge mais de 30% das crianças entre 5 e 9 anos, 20% da população entre 10 e 19 anos e praticamente metade das mulheres e homens acima de 20 anos.

Tara Lyin, em ensaio para a revista Elle francesa.

Independente do padrão de beleza imposto pela mídia e pela moda, sempre existirão mulheres com os mais variados corpos. Consequentemente, é preciso que todas possam ter sua autoestima elevada e que possam encontrar roupas bonitas para vestir. O que não implica em criar um novo padrão de beleza, trocando falta por excesso de peso. A glamourização do plus size, mais que levar em conta apenas a questão estética, ignorando a da saúde, é reforçar a necessidade de rótulos a seguir e incentivar a ditadura – sempre massacrante – da beleza.

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