Encantos de Clara

Quando conheci Clara ela era quieta e inteligente. Estudamos juntas por apenas alguns meses, até que eu mudasse de colégio. Na verdade, acho que nunca nos falamos, mas eu a olhava de longe algumas vezes. Algo nela, além de seus olhos claros e seus lindos cabelos castanhos eram como um imã que atrai, ainda que por um milésimo de segundo, sua atenção.

O tempo passou e apaguei Clara de minhas memórias. Como eu não saberia dizer, Clara voltou a aparecer com todo seu encanto e fascínio. E mais uma vez ela prendia minha atenção em seus gestos e ideias. Intrigada com essa garota, resolvi me aproximar, mandando um pequeno recado on-line: “Oi, tudo bem? Parecemos ter tanto em comum, né? Estranho nunca termos nos falado, mas pensei que podíamos sair, tomar um sorvete ou uma cerveja”. Clara, sempre doce, concordou com uma leve esquiva: “Também acho, podemos sim… te aviso quando”. Alguns dias depois me perguntei se devia mesmo ter ido falar com ela.

Clara foi se perdendo em meio a estudos, trabalho e contas. Até o dia em que ela apareceu em minha caixa de entrada. Um e-mail de Clara, por quê? Surpresa, descobri que ela estava me contando várias coisas de sua vida, inclusive que tinha síndrome do pânico e só conseguia sair de casa acompanhada dos familiares. Suas frases entrecortadas e inseguras eram como o encontro com um gato: ele pode até querer ser seu amigo, mas você precisa ganhar a confiança dele antes.

Depois de alguns e-mails nós nos encontramos para comer. Acostumada a sempre estar rodeada de pessoas, achei que talvez o encontro com Clara seria constrangedor, mas foi uma das noites mais agradáveis dos últimos tempos. Sai de lá pensando por que Clara me encantava tanto, sendo que conheço tantas mulheres lindas, descoladas e espertas que não me despertam o menor senso de amizade. Clara não é apenas bonita. Ela é simples, engraçada e sensível, é capaz de sentir quando alguém precisa dela. Clara é do bem. No meu aniversário ela me mandou uma carta. Sim, uma carta escrita à mão, em pleno século 21 (não disse que ela é incrível?).

Clara está “progredindo” e em nosso último encontro saímos com mais amigos e sem os familiares dela. Obviamente fiquei muito feliz com seu avanço, porque a síndrome fez Clara abandonar estudos, trabalho, amores, independência e pseudo amigos e tudo que mais desejo é que ela possa levar uma vida “normal”, saindo de sua cápsula protetora. Tenho que confessar que com frequência me pergunto: será mesmo que nós, “aqui do lado de fora”, estamos preparados para receber alguém tão puro quanto Clara? Às vezes me questiono se não somos nós que estamos do lado errado…

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