A minha história Favorita

Imagem: Daniele Queiroz

Você está na minha vida desde que eu me lembro. Nada mais certo, afinal você foi a costureira do vestido de casamento da minha mãe. Você sempre disse que achava que não me veria casar, enquanto eu ria te chamando de boba, dizendo que você ainda veria muita coisa nessa vida. Mas agora eu sinto medo, medo de que você não acorde nunca mais, medo de nunca mais ouvir suas piadas sujas e ver seu jeito bonito de nunca desacreditar do amor, ainda que tenha 86 anos. Você sempre gostou de me contar histórias, mas existe uma que sempre foi a minha Favorita. Algo que nunca esperei ouvir de uma velhinha e que agora quero compartilhar com outras pessoas:

“Eu era muito nova e vivia com meus pais, sempre seguindo as ordens deles e costurando cortinas para ajudar com as finanças em casa. Meu pai era um típico italiano, que nem falava português, e todos da família deviam seguir suas regras. Ele não admitia que eu, branca dos olhos azuis, namorasse o homem que amava, porque ele era negro. Mas menina, você precisa ver que preto era aquele, ele era um rapaz muito bonito. Então namorávamos escondido e eu fugia de casa para encontrar meu amor. Quando meu pai morreu eu levei meu namorado até o velório e fiquei com ele lá, do lado do caixão, falando baixinho para meu finado pai: “Vai, manda ele embora agora que eu quero ver”. O problema é que meu namoradinho teve que ir pra guerra… onde morreu. Foi muito triste e sofri muito, pedindo todas as noites para Deus me deixar ver ele mais uma vez. De tanto que desejei, uma noite acordei assustada e vi que ele estava parado na porta do meu quarto, com a carne toda podre e com marcas de guerra, dizendo que eu precisava seguir minha vida e deixá-lo descansar em paz. Desde esse dia eu nunca mais pedi pra encontrar com ele. Mas ele foi o único homem que amei de verdade, gosto dele até hoje e só tem uma coisa nessa história de que me arrependo muito.”

E quando ouvi pela primeira vez eu perguntei, emocionada: “De ter provocado seu pai no velório? Ou de ter pedido pra ele voltar depois de morto?” E sorrindo com seus poucos dentes você me surpreendeu: “Não, disso não, a única coisa que me arrependo é de não ter dado praquele negão”. E todos riam, chocados com sua sinceridade.

Agora você está internada e talvez nunca mais nos vejamos, mas quero que saiba que essa história marcou minha vida, me mostrando que a vida acaba rápido demais para nos preocuparmos com a opinião alheia. Fique… ou vá… mas nunca esqueça que é minha nona Favorita. Te amo.

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Uma resposta para A minha história Favorita

  1. =’)
    Lindo texto! Força pra sua nona!

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