Meu cabelo é ótimo, ruim é seu preconceito

Dificilmente o preconceito é gritado. As pessoas ficam surpresas se alguém repentinamente é chamado de “macaco” no meio do expediente, mas não gera espanto ouvir dizer: “Você até tem o perfil para a vaga, mas para trabalhar aqui precisará cortar seus dreads” ou “Nossa, você ficou muito mais bonito depois que cortou seu black”. Ficou mais bonito como? Assim careca, sem mostrar nenhum fio que remete aos negros? Sobre os dreads, um dos argumentos usados é que “é sujo”. Realmente eles não costumam ser lavados todos os dias, porque demora para secar, mas isso implica em sujeira? Quantas vezes por semana uma mulher que faz chapinha no cabeleireiro lava seu cabelo? Ele é sujo? Ou simplesmente é um cabelo liso e, portanto, limpo? Claro que muitos optam pelos dreads por uma questão de estilo ou gosto (que também deveriam ser respeitados), mas muitos elegem o penteado, assim como as trancinhas rasta, por praticidade, porque não é tarefa fácil pentear um cabelo crespo e arrumá-lo toda manhã.

Ainda que alguém não curta determinado estilo, o que lhe dá o direito de simplesmente falar: “Credo, por que você fez isso no cabelo? Corta esses dreads”. Não consigo me imaginar falando para uma pessoa, sem ela ter me perguntado nada: “Cruzes, que franja horrível, por que não corta?”. Isso é no mínimo deselegante.

É difícil imaginar uma executiva de sucesso de terno e black power. Mas visualizamos facilmente uma de terno e longos fios lisos e loiros que vão até a cintura. E por que a primeira não pode deixar seu cabelo crescer? Será por que ele cresce “para os lados e para cima”? Ou, bem no fundo, por que ele é a prova do sangue africano, lembrando que em um país ainda tão colonial não é adequado um negro (por tanto escravizado e considerado inferior) estar no poder?

Ao longo da  vida ouvi muitas frases como “Seu cabelo ta muito armado, fica horrível. Prende num coque.” Horrível é seu preconceito, prenda-o dentro de você. Toda vez que vou ao cabeleireiro para cortar o cabelo a profissional me diz: “Acabei, vamos fazer escova?” E elas ficam inconformadas quando digo que não, argumentando: “mas é só pra tirar um pouco do volume, não vou cobrar por isso”. Nem se vocês me pagassem eu tentaria me adequar aos seus padrões preconceituosos.

Depois de uma infância sofrendo com minha jubinha, eu me dou muito bem com meu cabelo e uso ele solto quase todo dia, mas ainda ouço comentários como “ah, mas você tem sorte, porque seu cabelo não é ruim, é só cacheado”. É, eles têm razão, meu cabelo não é ruim. Ruim mesmo é conhecer alguém com uma mentalidade tão medíocre. E entre esses absurdos eu mantenho meu cabelo natural, com orgulho de ser neta de negros, tataraneta de africano e descendente de escravo, com a certeza de que isso não influencia meu caráter.

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