Cigarro x Maconha

Em 1987 a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu o dia 31 de maio (no caso, hoje) como Dia Mundial Sem Tabaco. Em uma nota que fiz ontem para a revista Scientific American Brasil, descobri dados assustadores e vi cair por terra o clássico argumento dos fumantes de “Eu sei que faz mal… dane-se, quem ta se prejudicando sou eu mesmo”. Fiquei espantada ao saber que em regiões produtoras de fumo, com safra em dezembro e janeiro, algumas escolas já chegaram a alterar o calendário letivo para que as crianças que trabalham na lavoura possam <ironia>”se dedicar à profissão”</ironia>. Nunca tinha parado para pensar em fatores globais como o fato de 25% a 50% de todo o lixo coletado em ruas e rodovias ser composto por bitucas, nem que o cigarro tem cerca de 4,700 substâncias tóxicas que, além de irem para o corpo do fumante, serão liberadas no meio ambiente. Parece exagero, mas multiplica isso por 25 milhões (número estimado de fumantes brasileiros em 2008). Isso sem falar dos testes feitos em animais, para garantir a qualidade (oi?) do cigarro.

     Pensando nisso, minha cabeça de ovelha que insiste em devanear relacionou dois fatos: cigarros, que comprovadamente matam, são legalizados no Brasil. Maconha, proibida,  consequentemente traz o tráfico que… olhem só, também mata. Não estou aqui dizendo para acendermos um baseadinho e sermos felizes. Estou dizendo para abrirmos os olhos — e a cabeça. Em 2010, as seis principais fabricantes de produtos de tabaco do mundo tiveram lucros de US$ 35,1 bilhões, o equivalente ao faturamento da Coca-Cola, da Microsoft e do McDonald`s juntos. Em uma notícia que vi no UOL hoje, diziam que os altos impostos do cigarro, tão comentados ultimamente, não bancam os gastos com saúde. Realmente imagino que não. Ainda mais pensando que cerca de 70% das mortes por câncer de pulmão, brônquios e traqueia são provocadas pelo tabaco.

     Um dos argumentos contra a maconha é que abre portas para outras drogas. Mas ela abre porta por que é uma “droga”? Se fosse vendida na padaria, de forma legal, também abriria? Se a resposta for sim, o raciocínio  deveria se aplicar também ao cigarro, afinal, o princípio é o mesmo: algo “fumável” enrolado num papel. Quantas mortes acontecem diariamente pelo uso excessivo de álcool? Muitas, não? Agora paro pra pensar e concluo que nunca ouvi falar de um assassino maconheiro. Aliás, que termo perjorativo, não? Quem fuma cigarro é popularmente “fumante”. Quem fuma maconha, “nóia”. Cigarro combate o estresse. Maconha é coisa de vagabundo.

     Não defendo a ideia de que maconha faz bem para a saúde e ressalto que qualquer substância que produza fumaça prejudica o organismo de alguma forma, mas juro que busco entender em que momento concluímos que cigarro é mais seguro que maconha e por isso pode ser legalizado. Talvez esteja na hora de inverter os papéis — seja ele com filtro, de seda ou de hipócrita. 


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