O dia em que a cerveja acabou

Tinha acabado de sair do trabalho. A primeira reação foi soltar o nó da gravata, que apertava meu pescoço e me fazia suar em bicas. Eu poderia ir pra casa e lavar a louça na pia que desde manhã aguardava ansiosamente pela minha volta, mas cheguei à conclusão de que tomar uma cerveja gelada resolveria melhor meu problema. Escolhi o boteco do quarteirão de trás, aquele bem simples, com toldo vermelho e mesas e cadeiras de metal, daquelas que abrem e fecham, típicas de bar.
      – Camarada, desce uma gelada, por favor.
      – Ixi patrão, vou ficar te devendo, a cerveja acabou. Só tem guaraná.
     Sexta-feira, seis horas da tarde mais calorenta dos últimos tempos… a cerveja acabou e ele me oferece guaraná? Tem gente que não sabe mesmo ganhar dinheiro. Levantei um pouco frustrado e parei naquele outro bar, um pouco mais chique, um pouco menos boteco, mas que pelo menos tinha mesas (de madeira, mas ainda de abrir e fechar) ao ar livre. Já sentindo o geladinho na garganta eu pedi:
      – Opa, quais cervejas você tem?
     – Tem cerveja não, desde ontem tamo sem. Mas a água de coco ta uma maravilha.
     Era Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo e ninguém me avisou? Água de coco ta uma maravilha?Já não se fazem mais garçons como antigamente. Suando cada vez mais e com uma leve irritação, parei na padaria ao lado da praça. Sempre achei que beber no balcão da padaria é um tanto quanto triste, mas minhas opções mais próximas já estavam se esgotando – assim como minha paciência. Um pouco sem-graça, evitando parecer um quarentão deprimido que passa a tarde afogando as mágoas no balcão, eu falei para a atendente:
      – Quanto ta a cerveja?
      Ela, alguns decibéis a mais do que eu pretendia levar a conversa:
      – Não entendi…
      Eu, um pouco mais alto, mas ainda mais baixo que o semi-grito que ela deu:
      – Cerveja… quanto ta?
    – Aaaaah, o senhor quer uma cerveja? Acredita que acabou bem nesse calor? A gente faz suco, quer?
       Eu estava a apenas um balcão de distância, ela precisava mesmo falar tão alto?
    Já perdendo as esperanças de encontrar uma simples garrafa de cerveja e abrindo alguns botões da camisa para tentar suar um pouco menos e ter mais forças para continuar minha missão, avistei um vendedor ambulante carregando seu isopor.
      – Hey, você, espera aí.
     Com uma leve corrida, que por sinal só me deu mais sede e me lembrou do quanto estou fora de forma, alcancei o homem.
      – Nossa, brother, ainda bem que te achei. Acredita que to faz quase meia hora procurando uma simples cervejinha e em todos os lug…
    – E em todos os lugares acabou, né? To sabendo, vendi a minha última latinha faz dez minutos. As vendas foram um sucesso hoje. Também, com esse calor, né? Não ta com calor com essa roupa social não?
      Óbvio que eu estava com calor. Aliás, acho que era visível que eu estava com calor. Ou ele achou que a camisa molhada era parte do concurso “gato molhado”?
     Já sem a gravata, camisa aberta e considerando seriamente tirar os sapatos, minha última esperança era o mercadinho na frente de casa.
      – Nossa, seu Jorge, ta descalço? Foi assaltado? Menino, essas ruas estão um perigo e…
      – Não, não fui assaltado. Só queria uma cerveja. Vai dizer que não tem também?
      – Vou dizer mesmo. Acabou cedinho hoje…
   Já sem paciência, sem gravata, sem sapato, pingando suor e indignado, eu me dei por vencido e atravessei a rua, rumo a minha casa. Talvez fosse praga da louça.
   Quando estava fechando a porta, ouvi a dona Jurema, a do mercadinho, gritando: “Seu      Jorge, seu Jorge… peraí. O caminhão de cerveja ta vindo ali na esquina”. Reunindo toda a calma do mundo, vi a entregadora estacionando e desembarcando os engradados que semanalmente vendia no mercadinho. Voltei e aguardei pacientemente no caixa.
       – Quero apenas uma lata, dona Jurema.
       – Uma só? Mas parecia que o senhor queria tanto uma cerveja.
       – Uma já vai resolver meu problema.
    Peguei, paguei, fui até o meio da rua e POW! Joguei aquela porcaria de lata no chão, enquanto a pisoteava (lembrando, descalço) e a xingava com todos os palavrões que aprendi desde a terceira série do primário. Quando achei que já era suficiente recolhi o que sobrou da lata e entrei em casa, muito mais tranquilo, pronto para encarar  a louça, enquanto ouvia a dona Jurema comentar:
       – Que maluco! Deve ter enchido a cara… viu como ele tava todo com cara de acabado? Homem quando bebe demais fica assim mesmo. Se tivesse só bebido um guaraná… 
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