Menina do mato

É que eu sou do mato, sabe, seu moço? Toda essa cara de moça da cidade é só uma armadura contra o frio que faz nesse lugar. É só para disfarçar, porque na verdade eu morro é de verrrrrgonha. Lugar cheio não é comigo, sabe, seu moço? E esse céu noturno meio rosado? Não dá nem pra apontar o dedo pras três marias e depois ficar morrendo de medo de aparecer verruga. O bom é que por aqui não deve ter lobisomi, né? Porque quase nem dá pra ver Lua cheia. Se vê é rapidinho, e logo uma nuvem de poluição esconde ela. Aqui tem muito prédio alto, mas eu gosto mesmo é de subir em árvore, sabe, seu moço? É, é disso que gosto: árvore alta e muro baixo. Ouvi dizer que aqui é a cidade que nunca dorme. Deve ser porque se dormir alguém leva sua carteira. E já que vamos ficar acordados a noite toda, é cheio de coisa pra fazer, mas ninguém tem tempo não, seu moço. Aqui todo mundo trabalha muito, pra ter dinheiro pra descansar. Mas quem descansa, seu moço? Depois de tanta correria, dormir ouvindo o barulho do tráfego na rodovia já ta bom. Descansar na rede, aqui, só se for na rede social. Aqui a gente não sai na rua pra papear com o vizinho não, porque a gente nem sabe o nome dele, mas não tem problema não, seu moço… a gente faz amigos no Facebook. Lá é quase igual a pracinha da igreja, sabe, seu moço?  Só falta a sorveteria. Toda noite todo mundo se enfeita o mais bonito que pode e vai. Também não tem nada pra fazer, que nem na pracinha, mas a gente vai mesmo assim. Aqui a gente come tudo junto quando dá, porque como já falei, aqui a gente trabalha muito, seu moço. Não dá tempo de sentar a família toda na mesa pra comer. Se ficar pra tomar café com a mãe você pode aproveitar e ficar pra almoçar com o cobrador dentro do ônibus, porque vai demorar pra sair de lá. É muito trânsito, seu moço. Aqui não tem barulho de cigarra que faz xixi quando você passa embaixo da árvore (deve ser porque não tem árvore) e em alguns lugares ainda dá pra ouvir passarinho gritando: beeeeem-teeee-viiiii… mas eu preciso é voltar logo pra vida mansa, seu moço, porque eu quero é que ele me veja bem longe daqui.
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