Filme – Toda forma de amor

toda forma de amorAcho difícil falar sobre filmes, porque sempre tenho a sensação de que antes de me atrever a deixar esses dedinhos divagarem eu deveria sentar e entender muito mais de cinema. Ler, assistir, ouvir, absorver, saber quem ganhou o Oscar de melhor fotografia e identificar os melhores atores logo de cara, mesmo que ele tenha o mesmo olho azul daquele outro ou um nome que eu nunca vou saber pronunciar e falo errado em tom de brincadeira, como se desde o princípio tivesse tentado dizer assim. Ainda assim, eu deveria fazer tudo isso se fizesse parte de um script, mas estou falando de vida real. O mesmo tema de um filme incrível que vi e estou fascinada: Toda forma de amor.

Na sinopse o filme foi descrito como comédia e eu me joguei no sofá esperando um roteiro água com açúcar — o suficiente para uma noite de molho em casa porque está com alergia –, mas desde o começo ele já me surpreendeu. Misturando passado e presente sem cortes de separação claros (assim como na vida real), a história mostra a vida de um homem que passou a infãncia toda presenciando e pressentindo o casamento falido de seus pais: um casal que se amava, ainda que o pai fosse gay, o que ele assume aos 75 anos, após se tornar viúvo, e a mãe sofresse pela falta da intensidade judia que via nela e tanto esperava do marido. O tipo de filme que teria tudo para ser clichê, com o adulto que apesar de traumatizado, isolado e fugindo do amor  acaba o encontrando sem querer em uma festa qualquer. A sutileza, porém, está na ausência de ficção.

tristezaRepleto de conflitos internos e cicatrizes que ninguém sabe bem quando abriram mas tem certeza de que nunca fecharão, o filme mostra toda a delicadeza do amor familiar e toca em pontos muito sensíveis: não importa o quanto isso incomode, em nós há mais de nossos pais do que gostaríamos. Além disso, aquela moça ou aquele rapaz que parece tão diferente de todos, no fundo reflete muito a sua figura materna ou paterna, acredite. Sua infância pode ter sido feita de vazios, angústias e esperas, mas ainda assim é você quem estará ao lado dos seus pais no final — e talvez só então os conheça de verdade.

Uma outra forma de amor abordada, além da linda amizade entre o Oliver (o filho) e Arthur, seu cachorro, com uma dedicação encantadora e entendimento pelo olhar, é entre casais. Com duas frentes, o filme mostra o amor entre o pai com câncer em estado terminal e um jovem amoroso e livre, e o amor entre Oliver e Anna, uma atriz misteriosa e imprevisível. O primeiro casal, o que mais se parece com um casal de filme, dá uma lição de companheirismo, alegria, liberdade e lealdade. Já o segundo, que se conhece  de uma maneira um pouco inusitada, emociona pela carga de tristezas pessoais e traumas que cada um carrega e pouco a pouco compartilham entre si. Nada de cenas da sétima arte que te fazem suspirar na janela. Inseguranças, telefones não atendidos, desencontros e sexo para fingir que o prazer físico supera a dor da alma.

Em outras vertentes o filme passa por temas cotidianos como luto, trabalho, pequenas alegrias, amor à vida, memórias e burocracias que a morte deixa para os vivos. Realmente uma das formas mais sutis e bonitas que eu já vi de descrever a vida: cheia de tristeza e graça, exatamente como ela é.

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